Especial “Releituras de Rubem Fonseca”

 

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Só a morte pode consertar a gente

 No conto “O inimigo”, Rubem Fonseca escreve: “O homem é um animal solitário, um animal infeliz, só a morte pode consertar a gente”. Essa frase diz muito sobre o mundo fonsequiano, em que abundam homens solitários, jogados à própria sorte; homens infelizes, tentando encontrar sentido em um mundo caótico; homens animais, reificados, violentos, cruéis; e, sobretudo, morte, em todas as suas formas e variações. Talvez por ver a morte como essa espécie de conserto de uma solidão e infelicidade inerentes à condição humana no mundo, Rubem Fonseca não se tenha sentido jamais constrangido em escrever sobre o tema.

Muitos pensam no autor como o pai do romance policial no Brasil. Não é o caso. Quando seus primeiros trabalhos ganham forma, o país já apresentava textos do gênero há mais de um século. Mas é dele, entre alguns outros, o mérito de conseguir articular esse gênero popular a um cuidado estético digno de destacá-lo para além do nicho habitual de leitores e eternizá-lo na história da literatura brasileira.

É pensando nessa centralidade do autor no cenário literário nacional e em sua recente morte, que nós, do Poligrafia, resolvemos nos reunir para produzir quatro releituras de contos emblemáticos do autor. Tais releituras variam: umas se apropriam da forma, outros de elementos narrativos, algumas das temáticas, outras da estética. Mas todas, de alguma forma, tentam prestar uma homenagem ao legado fonsequiano.

Eu, S., abro essa edição, com “Novo ano feliz”, um espelho invertido do conto emblemático que serve de título para o primeiro livro do autor, “Feliz ano novo”. Se lá, Fonseca resolve retratar uma juventude violenta e cruel, reificada pela miséria, irrompendo nas até então intocáveis zonas da elite brasileira, agora releio o conto através de um medo mais contemporâneo: uma elite brasileira violenta e cruel, que reifica os miseráveis, irrompendo em uma festa comunitária em busca de uma sádica diversão.

Em seguida temos “74 degraus”, de Lucas M. Carvalho, que homenageia o conto homônimo de Fonseca em que o autor explora uma estrutura pós-moderna de narrativa fragmentária, através de 74 instantes narrativos, cenas mínimas, fagulhas de pensamento, construindo através delas sua história. Lucas se apropria da técnica e dos 74 degraus para contar sua própria história de aprisionamento labiríntico, desespero e morte.

Gabriel Sant’Ana, em “Intestino grosso”, também homônimo ao conto original, opta pelo tema mais que pela forma. Na narrativa de Fonseca, temos um dos contos mais densos do livro Feliz ano novo, em que somos expostos à entrevista de um escritor cuja proposta literária, em muitos níveis, espelha a do próprio Rubem Fonseca, falando sobre violência, escatologia e sexo.  Gabriel desloca o cenário das reflexões estéticas para uma exposição de arte e opta por um foco pleno na parte escatológica.

Por último, Jonatas Tosta B., assinando nesta edição como Peri, em explicação feita nas notas finais do conto, escolhe o emblemático “O cobrador” como alvo de sua releitura. Em “Ednei”, Peri traz o próprio conto fonsequiano como um elemento da obra, mostrando um jovem perturbado, que toma o personagem de “O cobrador” como um herói, tentando de alguma forma reproduzir as façanhas de seu ídolo.

Esperamos com essa pequena homenagem não ficar à altura desse gigante de nossa literatura, mas contribuir, ainda que de forma mínima, para a divulgação e a reflexão sobre sua obra. Rubem Fonseca partiu após uma longa – e bastante polêmica – vida. Esperamos que, os percalços desse mundo sejam, como ele diz, consertados pela morte.

S.

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