Caixas de sobra – Ep. 31

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Por PublicDomainPictures. (Disponível em: https://pixabay.com/en/headlight-round-on-shining-glowing-2288/)

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conheça teus inimigos, apareça nos pontos onde o inimigo terá que se apressar para se defender e marche rapidamente para lugares inesperados, cala boca cala boca cala boca cala boca.

‘não estou falando nada’

‘está sim, cala a boca’

as motocicletas correm na direção do carro, eu e Angélica temos que nos rastejar pra nos afastarmos deles e embrenhar na mata, os faróis vão iluminar cada vez menos, eu sei, e as pedras, a terra e a areia vão rasgar os joelhos, Angélica sente dor, o sangue escorre da ferida no abdômen enquanto ela rasteja, deixando um rastro que só será encontrado no dia seguinte, quando o sol estiver queimando esta estrada, eu preciso me levantar e ajudar Angélica a se levantar, ela respira fundo e aperta o ferimento, seu gemido é tão rouco quanto o motor das motocicletas, ela não vai aguentar, ela sangra muito, a bala deve estar se movendo por dentro dela, cortando a carne, ela está ficando fraca, sinto isso enquanto ela vai se erguendo, apoiada em mim, não vai conseguir, não vou dizer isso a ela mas quando fala o som da sua voz é desencanto.

‘consegue andar?’

‘me segura assim, por aqui’

‘assim?’

‘por baixo do meu braço’

‘apóia o seu no meu ombro então’

‘vai devagar, está doendo muito’

‘assim é melhor?’

‘isso, agora me levanta’

‘aguenta firme, a gente precisa continuar andando’

‘tem muito sangue’

‘você consegue’

‘e se eu não conseguir?`

Angélica me olha como se eu fosse capaz de decidir sobre vida e morte, ouço vozes agora, parecem vir de estrada, parece que eles estão por todos os lados, parece uma legião, a mata alta vai se fechando cada vez mais, o capim corta a pele como se estivéssemos atravessando uma plantação de lâminas afiadas, ouço um tiro, nem sei de onde vem, o peso de Angélica sobre o meu ombro é quase insuportável, ela não vai aguentar mas não posso dizer isso a ela.

Luciano Cabral

Não perca, na próxima quarta, 20h, mais um episódio de Caixas de Sobra.

Caixas de sobra – Ep. 30

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Suor escorrendo no buço

A cabana mais escura, a madeira iluminada pela lâmpada incandescente meio morta

Os três, de pé, a porta se abre

Ele está nervoso, ele está com medo

            Do lado de fora, cheiro de mato. Sons de grilos e cigarras.

            Sua mão encontra a de Angélica e a aperta com força.

um disparo ecoa mais perto

mais um, mais um

Eles estão vindo para cá.

                                   Eles correm, galhos estalam sob os pés, pulam raízes

a respiração abafada

uma estradinha de terra

                        Entra no carro, Caixa. Vambora. Vambora!

– Cadê o resto?

– Eles vão cuidar desses caras.

Vira a chave na ignição, o motor ronca, o estofamento vibra na manobra sobre o chão de brita.

Gira o botão do farol,            revela árvores e mais árvores e mais árvores e mais

– Desliga o farol.

– Quê?

– Eles estão chegando.

Baixou pra lanterna, seguiu na trilha, amortecedores rangendo

Angélica chorando baixinho

as contas do Santo Rosário se espalhando no bolso

mais um tiro. esse foi mais perto

Estrada esburacada raspa no eixo do carro

– Acelera mais.

– Cala a boca.

– Corre, cara, corre

cala boca cala boca cala boca cala boca cala boca

Som de motor passa rente à esquerda

São motos. Deus. São motos. Quantos deles?

                        Um tiro estoura na lataria.

– Que…

Outro. Uma moto passa à frente. Luzes de faróis alternam-se.

Pisa no acelerador até quatro mil giros, o carro sai da estrada e entra na mata, o farol direito estilhaça

Mais um tiro, sangue espirra dentro do carro

perde a direção e acelera sem parar

e bate

contra um tronco

o vidro

o metal

os galhos

o motor morre

Eu já vivi isso uma vez

Procura a maçaneta, abre. O motorista, baleado no maxilar, tinha a mão direita no coldre. Passos pega a arma

– Angélica, vamos sair do carro.

Ela geme.

está ferida? está? está ferida.

            Passos sai, destrava a porta, ela rasteja para fora. Ele engatilha a arma. Aproximam-se os roncos das motocicletas .

Lucas M. Carvalho

Não perca, na próxima quarta, 20h, mais um episódio de Caixas de Sobra.

Caixas de sobra – Ep. 20

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– Não é assim que se vira a massa, seu Passos.

A cada vez que Matias me chama pelo nome, me amaldiçoo. Por que não fui inventar uma desgraça de nome falso? Coisas agora tão óbvias, mas que antes não passaram pela minha cabeça. Coisas que me fazem entender os grandes erros da humanidade. Guerras. Holocausto. Viver não é simples, não são decisões tomadas na frente de uma máquina de escrever.

– Vai deixar secar a massa, seu Passos!

Ele gritou. Eu imagino se alguém neste estado não ouviu. Meus olhos giram ao redor em pavor, acusando culpa, mas uma culpa que ninguém percebe, pois, aqui, todos são igualmente culpados.

– Matias, eu não sirvo pra servente.

– Pelo menos você não falta. Os moleques da Rafaela cagam tudo e ainda nem aparecem na hora do serviço.

Vinte e cinto reais no fim do dia. Volto para a casa da Angélica, suado, as roupas são fiapos de indigente. Cumprimento o Marlon, ou talvez o Diogo, nunca lembro quem é quem. O menorzinho é Levi. Nunca consigo olhar nos olhos dele. Angélica pede pra eu descer e comprar um macarrão porque a água já está fervendo. É um fim agradável de tarde, ao longo de muitas tardes agradáveis, como jamais pensei ser possível.

– Faz mágica, tio?

Ponho uma pedrinha na junta do cotovelo do menino e a faço aparecer no outro braço.

– Me ensina?

– Só se você for na venda pra mim, que eu tô cansado. Traz um macarrão.

Deito no canto que me foi preparado. Angélica assiste TV e faz as unhas dos pés.

– Me diz uma coisa, Passos. O que que tu fazia de trabalho?

– Eu? Era vendedor.

– E o que tu vendia?

Abro boca despretensiosamente:

– Era um…

No bolso, um papel manchado. Parece ser o que sobrou do velho “A Arte da Guerra”. Angélica olha para mim e espera a resposta. Eu apenas sorrio.

Lucas M. Carvalho

Não perca, na próxima quarta-feira, 20h, o próximo episódio de Caixas de Sobra!

Autor convidado: Harold Emert

emertHarold Emert, cidadão Americano e Brasileiro, é nativo da cidade de Nova York, onde ele se graduou pelo Queens College e pelo Manhattan School of Music. Desde sua infância ele teve dois amores nada práticos: música e jornalismo. Depois de uma breve carreira em Nova York como oboísta e um breve período como repórter, ele aceitou o convite para fazer parte do South African Broadcasting Orchestra, em Joanesburgo. Participou, ainda, de orquestras em Israel e na Alemanha (Saarbrucken Radio Orchestra) antes de aceitar o convite para se tornar membro da Orquestra Sinfônica Nacional do Brasil em 1973. Oficialmente aposentado em 2013, continua tocando, compondo e tentando escrever. Emert ainda é repórter e colunista do Brazil Herald no Rio, trabalhando também pelo Daily Mail e Mail on Sunday de Londres. O acaso o levou a estudar literatura na UFF pelos últimos quatro anos. No último curso concluído, sobre ficção detetivesca, Emert, filho de um autêntico detetive novaiorquino, escreveu “Crime Doesn’t Pay” baseando-se no antigo ladrão de trens Ronald Biggs, que morou no Rio por trinta anos e foi a razão pela qual Emert entrou no jornalismo britânico.

“O mal da obviedade”, por Pedro Sasse

“Sabe, meu pai costumava dizer que o gosto pelo amargo é o que nos faz verdadeiramente diferente dos animais. Ele trabalhava em uma fazenda e passava o dia entre gado e galinha. Achava, lá pelos tantos da idade, que os animais tinham tudo para serem ótimos humanos: comiam, transavam, sabiam obedecer, gostavam de carinho e gritavam na hora da morte. ‘Mas nunca você vai ver um porco desses preferir um bom copo de doze anos em vez de um punhado de açúcar refinado, moleque’. Falava arrastando o bicho pros fundos da casa. O amargor, eu acho, faz parte do nosso instinto de autodestruição, de masoquismo, de aprender a negar o que o corpo realmente quer, Jessica”.

Os últimos casos não foram muito agradáveis pra você, eu imagino. Esse do vizinho que assassinou aquela família ainda ecoa na minha memória… Sabe que o criminoso ainda está foragido? Raramente são pegos, na verdade. Todo santo dia tem um homicídio novo na cidade. Todo santo dia um novo assassino não é capturado. Estão todos aí fora.  Se aglomerando… Uma bola de neve vermelha de sangue esperando para passar por cima de nós. Por isso eu só consigo dormir a base de muito remédio hoje em dia. Quem é que dorme tranquilo sabendo que há dezenas, centenas de monstros lá fora? Bom, não vou mais tomar seu tempo, você é alguém ocupado. Esse é o último caso, se serve de consolo. Mas fique atento, não é um caso fácil, não é trabalho de amador. Se descobrir algo me avise…

Ler “A obviedade do mal”

Mais sobre o autor

Seção autoral de Pedro Sasse

Polistórias: Crime

Um dia desses, dei por abrir meu Capão pecado, do Ferréz. Logo no início, tem uma espécie de prelúdio feito pelo Mano Brown e uma frase chamou minha atenção:

“Aqui as histórias de crime não têm romantismo e nem heróis.”

Ele estava falando de São Paulo, do Capão Redondo mais especificamente. Mas a máxima poderia, sem dificuldade, ser aplicada ao Brasil como um todo. E principalmente à literatura brasileira. Num mundo de Dupins, Holmes, Poirots, Spades e Marlowes, o Brasil sempre pareceu um pouco desamparado. Com tentativas tímidas ilhando-se na história, a verdade é o crime, aqui, sempre falou mais alto que seus combatentes.

No começo do mês, após decidirmos, entre as sugestões enviadas, o tema “romance policial”, pensei que talvez as coisas estivessem mudando no país. Se até a Patrícia Melo de O matador tinha se rendido e criado uma detetive para salvar o dia, quem sabe todos nós não pudéssemos dar uma chance à ordem e à justiça…

Todos ao trabalho e semanas mais tarde a conclusão: é, Mano Brown, você continua certo. Os heróis ainda são escassos por aqui. Com uma abundância de textos focados nos criminosos, o Poligrafia, esse mês, será sequestrado e, cabe ao leitor seguir as pistas que semanalmente deixaremos.

Assim, como ninguém iria escrever romances e o “policial” não cola muito por aqui, apresentamos na terceira edição de nosso projeto, o Polistórias: Crime. A partir de segunda-feira, cinco semanas de assassinatos, pistas, depoimentos e psicopatas vos esperam. Prontos pra desvendar esse crime?

Boa leitura!