Caixas de Sobra – Ep. 34

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uma serpente cruza o caminho de Passos, ele cruza os dedos lembrando as contas do rosário, sibila um verso da oração antiga, vade retro

a serpente continua seu rastejar em busca de

alguma centelha de esperança que se esforça por se manter viva, não foi para isso que dera a palavra? agora o problema é lutar pela vida, ainda haveria tempo para? pela vida de Angélica, já se distanciaram alguns metros da pedra sacrificial, ou do possível milagre, parece ouvir os fracos batimentos de um corpo em vias de se extinguir, mas confia nos ventos salutares da madrugada, futuro sopro revigorante

falaria ao chefe

Na mente de Santos Passos, Simeão ricto imparcial ainda acompanha o movimento, por que essa expressão?, continua seguindo os passos do gordo que ainda foge pela viela, vira à esquerda, entra num dos barracos, Passos e Simeão agora correm qual anjos justiceiros, viram à direita, a noite se adensa sobre os corpos, os ventos emitem sussurros de chuvas em aproximação, algumas gotas se precipitam sobre ambos que se apressam em direção ao chefe

perguntaria a ele, talvez exigisse, não, não, não poderia exigir estando naquela situação, Angélica ali reforça sua condição

por Gabriel Sant’ana

E não perca, na próxima quarta, às 20h, mais um episódio de Caixas de Sobra.

Caixas de sobra – Ep. 19

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O sussurro impeditivo o afeta, aquela tonalidade feminina, de leveza agressiva, o faz cair em sua incapacidade, não pula o muro, Abrão, não! Vem comigo, melhor por aqui. Ser guiado. Passos segue. Angélica. Haveria de esquecer os dias passados por um tempo… O incidente. A falta de identidade. Passos prossegue num caminho tortuoso de velhas árvores de raízes aparentes, temeroso, como confiar nela, isso não era questão que lhe vinha à cabeça, apenas ela ter lhe indicado o perigo do pulo, quem sabe não perderia uma perna, ou braços pelo ataque dos cães treinados do coronel, quem sabe uma bala certeira na cabeça. Você deve estar muito perdido. Quando chegarmos, te deixo descansar. Pela manhã te apresento ao pessoal. Como se chama. Santos Passos. Ironia.

Chegam. Muros de pichações, abreviaturas, nomes, Samuca Saudades eternas. Dois homens, seguidos de três crianças, armados, se aproximam. Tá comigo. Olhares de cima abaixo sobre Passos.

Becos estreitos. Casas de vários tipos, de tijolos ou papelão, os tamanhos variam conforme o tamanho dos familiares, uma das regras era não exceder seis crianças. Caminhos que não seguem o trajeto das réguas com que as crianças aprendem a contar os números com Seu Afonso, professor de matemática aposentado, morador da casa amarela à Rua G. Santos Passos aprende, mesmo com fome e sono.

Não repara, é uma casa humilde. Pode usar o banheiro. Só não esvazia o balde d’água. Vou preparar um canto pra você deitar. E pega alguns panos velhos, toalhas que não servem para enxugar.

Finalmente deita.

Gabriel Sant’Ana

Não perca, na próxima quarta-feira, 20h, o próximo episódio de Caixas de Sobra!

“Fodase!”, de Gabriel Sant’Ana

“Palavrão arranhado no assento, próximo às pernas, sinal emblemático da posição em que o corpo tenta reorganizar suas forças desestabilizadas, nesta posição as mãos apoiam a cabeça para que não sofra tanto com a pressão da gravidade da situação, e também as mãos que se sustentam ao contato sofrível dos cotovelos sobre a calça, neste momento se amarrotando, e também a blusa perdendo o alinhamento dado previamente pela doméstica há tempos da família.”

Dr. Jorge Felipe foi uma figura central no incidente. Diversas vezes citado no caderno de P., não há contudo nenhum registro oficial de sua experiência durante o evento. Coletando as informações encontradas sobre o problemático ex-PM, tentamos reconstruir um pouco do que deve haver sido suas primeiras impressões da súbita parada do Metrô.

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“M.N.”, por Gabriel Sant’Ana.

“Uma forte emoção faz vibrar Manuela. As imagens borradas de sua infância vão se desembaraçando. Inconsciente, sua mão desliza sobre as cicatrizes da nuca e das costas. Não foram pela queda da bicicleta ou do balanço quando tia Ilda a levava ao parquinho da praça… Não poderiam ser.”

Após o intrigante caso conspiratório alemão de “Deutsch Geister“, nossas investigações nos trazem de volta ao Brasil. Entre cartas antigas, recortes de jornal e segredos de família, Manuela revela um passado cada vez mais perturbador.

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“Retorno para ti”, de Gabriel Sant’Ana

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“Sr. Banvu, demonstrações de nervosismo, mesmo para pessoas da sua idade, são um sério sinal. Seria melhor, para o próprio encaminhamento das investigações, que o senhor cooperasse, inicialmente se acalmando. Os mais nervosos são sempre mais difíceis e nos forçam ao que não seria necessário. Veja estas fotos. Consegue nos dizer o que o senhor conversava com este homem? Ou se lembrar do que conversavam?”

Após uma longa jornada de cinco semanas pelo globo, enfim pousamos em Cabinda, Angola, nosso destino final. Gabriel Sant’Ana traz, em “Retorno para ti” a imagem de um país marcado pela violência, um conto sobre poder e impunidade.

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Caixas de sobra – Ep. 09

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Faltam alguns quilômetros para chegar ao hotel e sente a mudança não apenas na estrada, não era a mudança do clima, não eram as constantes obras para melhoria das rodovias, algo nele se revolvia, sentia que algo iria lhe escapar caso não observasse com mais cuidado. Cuidado. O que significa isso? Cuidado com os pedidos que fazem a ele. Apenas consegue se aproximar de um sentido ao considerar as caixas que há anos, com cuidado, leva a cantos variados.

Começa a tocar no rádio uma batida conhecida. It’s no sacrifice at all… Subitamente os rostos da mulher e do filho se refletem no retrovisor. Era um sábado, na sua primeira semana de férias na empresa, após três anos de intenso trabalho, o garoto tinha uns quatro para cinco anos, estavam há quatro anos juntos, um relacionamento que prometia muitas alegrias. Naquele dia, levavam o menino ao zoológico. …two hearts living… Foi difícil acordar tão cedo, ajeitar o carro, preparar alguns sanduíches, separar uma quantia de dinheiro. Era um sacrifício necessário.

Aonde o levaria reviver tais acontecimentos passados? Nem sequer sabe que horas está durando a saída do posto até o hotel. Apenas sabe que isso tudo demora. Esse vácuo temporal, porém, é menor do que o abismo entre ele e o filho. Não esperava que fosse o filho a atender a ligação. Não estaria a caminho da escola? Estava matriculado em alguma? Suas narinas se movimentam aceleradas em busca de ar, seu ritmo cardíaco descompassado, olha para a estrada sem prestar atenção, suas mãos permanecem firmes no volante.

Apenas poucos metros para o hotel. Aloca o carro no estacionamento externo. Seu corpo, habituado ao contato com as caixas, tendo sofrido constantes acidentes, se vergava sob um sobrenatural peso. Encaminha-se à recepção. Um senhor de aparentes sessenta anos, barba falhada, terno gasto, o recebe.

– Bom dia! Em que posso ajudar?

– Tem algum quarto vago?

– Só um instante, que vou verificar… O senhor, por favor, aguarde na sala de espera, irão levá-lo até o quarto. O senhor tem malas ou qualquer objeto?… Ei… estou reconhecendo você…

O senhor tira os óculos do rosto, limpa as lentes com um paninho guardado no bolso da calça, repõe os óculos, ajeitando de maneira a não tocar as lentes nas pupilas.

– Sim… estou com certeza me lembrando de você… Não se chama…?

– Não devo ser quem o senhor está achando.

– Então é você mesmo… Você não trabalhava no setor administrativo da empresa do dr. Alvez Moreira?

– Olhe… Estou precisando…

– Mas como! E agora o que tem feito? Não está me reconhecendo, não é? Eu trabalhava como secretário do dr. Alvez… Não se lembra mesmo de mim? Olhe aqui esta foto… sempre a levo comigo… aqui está toda a equipe da época… sempre a levo comigo, sabe? Isso me dá um sentido para não desistir dos meus objetivos… Era uma frase que o dr. Alvez sempre usava no início das reuniões, não se lembra?

– Sem querer ser grosseiro…

Passos aperta a mão do senhor e se encaminha à sala de espera. Talvez fosse ele na foto, talvez alguém. Talvez nem ele fosse, talvez um ninguém, espaço que poderia ser ocupado por qualquer um. Só deseja retirar a roupa, entrar numa ducha quente, deixar escorrer a água sobre os ouvidos. Cuidar de si.

Gabriel Sant’Ana

Não perca, na próxima quarta-feira, 20h, o próximo episódio de Caixas de Sobra!

“Cuidado, piso molhado!”, por Gabriel Sant’Ana

Dubai Mall, por Kris K.G. (Disponível em: http://lostknightkg.deviantart.com/art/Dubai-Mall-172455252)

“(…) Existem várias formas, maneiras de se matar alguém. Não perderia tempo estudando medicina, de que adianta saber os nomes dos músculos, ossos, veias, se o que importa mesmo é o sofrimento da vítima? Aquele shopping, aquelas pessoas, aquela situação, aquele ar condicionado, aquele médico, aquele trem, aquela sua casa, aqueles seus parentes, seus vizinhos.”

Dando continuidade ao tema Terror iniciado na semana passada com Auspício, de Lucas M. Carvalho, o Poligrafia traz uma perturbadora história pelas mãos de Gabriel Sant’Ana. Depois de ler “Cuidado, piso molhado!”, as praças de alimentação e banheiros de shopping centers com certeza não serão vistos da mesma maneira…

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