“Saída de emergência”, por Jonatas T. Barbosa

“O ruído das caixas de som dessa vez viera agudo, quase inaudível. Todavia, ele compreendera bem a mensagem, o sinal. Nada havia começado ainda. Era apenas um prelúdio. Um círculo familiar onde fim precedia o princípio. Um túnel aberto. Atravessava o tempo e o espaço, dentro e fora de sua mente. O caminho direto para seu próprio Inferno”.

O único corpo oficialmente encontrado nos trilhos do metrô na época do Incidente foi o de um jovem, entre os 20 e 30 anos, roupas simples, apenas o celular, uma carteira sem documentos e um isqueiro no bolso. O laudo da perícia médica indicou grandes doses de antidepressivo e outras drogas de uso controlado em seu sistema. Em comunicado oficial, o MetrôRio informou que o rapaz havia entrado na estação após o fechamento dos serviços,provavelmente sob o efeito de entorpecentes e morreu no meio dos túneis da linha 1. No Reddit, usuários não tardam em conectar o caso ao Incidente Glória, criando as mais diversas teorias. Jonatas Tosta, hoje, apresenta um conto baseado na possível experiência desse jovem durante o evento.

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Caixas de sobra – Ep. 07

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O carro abandonou a velocidade do motor para entrar em colisão com o acaso. Todos os dias de sua vida se uniram em um mesmo ponto. Futuro e passado convergiram para a duração infinita daquele momento. O ponteiro do velocímetro marcou instantaneamente o número zero. Por todo o corpo reverberou a onda de choque. Passos sentiu os ossos chacoalharem como se fossem de vidro. O para-brisas trincou, quebrando as luzes da estrada em mil pedaços. Seus ouvidos ensurdeceram num buraco negro. Outro segundo. O breve silêncio foi rompido pela queda do retrovisor. Ele ficou soterrado sob um monte de caixas.

Tentou gemer, mas o cinto de segurança esvaziara os pulmões. Os olhos estavam cobertos de fios de sangue. Tocou a ferida na testa e percebeu o pulso nu. A presilha do relógio havia se partido. Não tinha noção de que horas eram.

Os dedos trêmulos pressionaram a trava de segurança. A porta precisou de um empurrão para abrir. Desabou, caindo de joelhos no asfalto. Uma das caixas rolou para fora como se o perseguisse.

Passos levantou-se. Um chiado insistia por baixo do capô e o vento soprava vapor do sistema de resfriamento no rosto. Havia água vazando sem parar. Ele pôs as mãos na cabeça. A massa metálica da dianteira envolvia uma velha árvore à beira do acostamento. Seu tronco parecia um senhor de idade encarando-o com os olhos acusadores. O homem evitou-os e avaliou o estrago do veículo. Um dos faróis ainda funcionavam. Ajustou-o no lugar.

Ao longe, na direção para onde ia, notou luzes vermelhas piscarem na via oposta. Os automóveis abriam espaço para a ambulância passar. A garganta contraiu-se de vergonha. Os dentes rangeram e ele socou a lataria.

Voltou para o carro e tentou dar a partida uma, duas, três vezes. O sangue que escorrera da testa já estava coagulado, fazendo-o lacrimejar. Tinha chegado às portas do inferno, pensou, e Pandora não estava lá.

Tateou os bolsos do casaco. Não tinha cigarros. Tinha apenas um livro. O manual de Tzu poderia ter respostas para a guerra, mas não sabia nada sobre batidas carros, ou sobre homens comuns. Acendeu a luzinha e folheou as páginas. Lá pela página quarenta, no trecho em que Tzu ensina que na arte da guerra se deve potencializar os anseios do inimigo e usá-los contra os mesmos, Passos encontrou rabiscos irregulares de giz de cera. Um monte de círculos que não significavam nada, todos feitos por seu filho quando era pequeno. Ele tinha um filho. As lágrimas nasceram de algum rio escondido dentro de si e pingaram nas folhas. Secou os olhos. Estava escuro e era hora de ir. Jogou as caixas que atrapalhavam para o lado. Deu a partida pela quarta vez. O motor roncou como um moribundo, mas Passos persistiu. Pisou o acelerador até a queima de combustível estabilizar. Entendeu por que aquele carro era tão antigo.

– Você é um velho desgraçado… – disse, engatando a ré.

Os pneus rolaram o acostamento e esmagaram a caixa que havia caído, antes de continuar o caminho da estrada.

Jonatas T. Barbosa

Não perca, na próxima quarta-feira, 20h, o próximo episódio de Caixas de Sobra!

“Praia do urso”, por Jonatas T. Barbosa

“Rabbit”, por Szigeti Vajk Istvan. (Disponível em: http://vajk.deviantart.com/art/Rabbit-29567369)

“Marie despertou vomitando água salgada que escapulia pelo nariz e sentindo o fedor de pelo molhado. Não sabia quanto tempo se passara, mas já estava escuro. A lua minguava como uma lâmina. Ela sentia apena dor de cabeça. O resto do corpo parecia ileso. Passou a mão pela barriga, flanco e coxas. As pernas estavam livres, mas dormentes. Tentou mover uma a uma, elas não respondiam. Continuavam imóveis.”

Os ponteiros se aproximam de meia-noite e surge das sombras o penúltimo conto de nossa série Terror. Sucedendo “Carne de Bicho, Carne de Gente”, de Luciano Cabral, Jonatas T. Barbosa nos apresenta “Praia do urso”. Acompanhe conosco a história de Marie e seu curioso bestiário vegano.

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