Myst e a arte de escrever mundos

No meu último post, eu trabalhei com narrativas ramificadas e citei o jogo Myst como exemplo. Ainda que não siga exatamente a estrutura dos jogos de narrativa ramificada, o mundo aberto, a possibilidade de explorar histórias internas ao jogo e os múltiplos finais me levou a citá-lo.

Apenas uma menção curta a Myst, no entanto, é um desperdício, logo resolvi dedicar a coluna de hoje a explorar alguns fatos interessantes sobre o jogo e o universo literário.

Para aqueles que viveram numa caverna durante os anos noventa, Myst é o nome da pioneira série de jogos de aventura produzida pela Cian Worlds a partir de 1993. Criado pelos irmãos Robyn e Rand Miller, Myst foi um dos games mais aclamados tanto pela crítica quanto pelo público, sendo o jogo mais vendido para PC até o lançamento de The Sims, em 2002. Um de seus pontos mais fortes era a imersão, que oferecia aos jogadores um universo rico em detalhes, tanto gráficos quanto narrativos.

Uma vez que o 3D ainda dava seus primeiros passos na época em que o jogo surgiu, o game utilizava cenários pré-renderizados, que permitiam uma qualidade gráfica muito superior aos jogos renderizados em tempo real (estamos falando de três anos antes do surgimento do N64! Lembra dos gráficos?). O resultado era uma restrição de movimento, que era limitado ao point-and-click, ou seja, o jogador apenas podia navegar por uma série de imagens fixas com algumas animações inseridas, sem possibilidade de realmente caminhar pelos cenários (apenas em RealMyst, remake do primeiro título, houve a possibilidade de movimentar-se pelo cenário livremente). No entanto, a movimentação não impedia a imersão em um ambiente fantástico.

O que nos interessa nessa série, contudo, não são os gráficos, mas aquilo que pode estabelecer uma ponte com a literatura, que, em Myst, perpassa todo seu universo. Entender exatamente o que significa isso, contudo, requer um pouco de imersão na história dos jogos.

Em Myst, o jogador assume o papel do Estranho, um personagem sem face e sem nome que encontra, em uma espécie de fenda dimensional, um livro capaz de transportá-lo para outro mundo, ou como chamado ao longo dos jogos, outra Era. Sem nada mais que uma rápida introdução que mais intriga que explica, o jogador é lançado num mundo misterioso e dependerá unicamente de seu raciocínio lógico para resolver enigmas que permitirão o progresso e envolvimento na enigmática história daquela Era.

Um dos pontos interessantes é a forma como os criadores do jogo construíram a interação entre os enigmas que movem o jogo e as dicas para resolvê-los: o jogador encontra, ao longo de todos os jogos, uma série de diários que vão, ao mesmo tempo, oferecendo dicas sobre o progresso e construindo a própria história daquele universo. Com isso forma-se, pouco a pouco, uma narrativa em moldura (uma história dentro da história) toda contada em diários. Somando o total de diários encontrados ao longo de cada jogo, no final, lê-se um romance epistolar que expande o universo de Myst para muito além da narrativa central. Descobre-se mundos, culturas, linguagens, pessoas.

E é nessa descoberta que surge o elemento mais interessante do universo de Myst. Tudo é uma grande metáfora do fazer literário. No início estranhamos. Para mudar de uma Era para outra do jogo (o equivalente a mudar de fases) é preciso encontrar certos livros chamados link books capazes de transportar o jogador para outros mundos. Conforme avançamos em nosso conhecimento sobre aquele mundo, descobrimos que tais livros são fruto de uma técnica chamada A Arte, criada por uma civilização antiga chamada D’ni.

Essa Arte seria a capacidade mágica de construir, através da literatura, mundos inteiros e possibilitar que qualquer um que os leia se transporte para esses lugares fantásticos. Familiar? O mais precioso segredo D’ni é suspeitamente semelhante ao que conhecemos como literatura…

É importante ressaltar que nem mesmo o jogo por si só é capaz dessa magia. É possível jogar e passar os desafios sem prestar muita atenção na história dos diários em si. O resultado, contudo, é uma sucessão de quebra-cabeças sem muito propósito com um final que não faz lá muito sentido. Para conhecer Myst é preciso ler, é preciso revirar passados e desvendar toda uma civilização.

Não fosse suficiente, a literatura escorre da tela do jogo para o papel e Myst é um dos primeiros games a gerar romances  próprios. A trilogia reunida posteriormente sob o nome de The Myst Reader completa a experiência narrativa do jogo, oferecendo com detalhes a história sobre o passado de Myst.

Mas não só na literatura se limitam as referências de Myst. Além de uma série de passeios pelas teorias da música, pela arquitetura, pela botânica, pela eletrônica e pela astronomia que se encontram nos enigmas do jogo, a própria cosmogonia dos livros é referência ao já aqui discutido multiverso, ou seja, a ideia de que existe um infinito número de universos com infinitas configurações da realidade. Para a cultura D’ni, a construção de um Description book, livro original que permite a conexão com uma Era (enquanto os link books apenas servem para transporte através de Eras já criadas), é sempre única. O artista se esforça em criar uma descrição profunda e detalhada a fim de evitar contradições (quebras de verossimilhança?) que levariam a abertura de uma Era instável e baseado nessa descrição o livro abre o caminho em direção a uma das infinitas possibilidades de mundo que se encaixam com a descrição. Mesmo que duas obras sejam perfeitamente idênticas, existem ainda uma série de elementos extratextuais (autor, contexto, suporte) que afetariam a construção desse universo, fazendo com que seja impossível a criação de dois description books iguais.

Escrevendo sobre a arte D’ni, três contos de Borges me veem a mente, todos contidos em Ficciones. O primeiro é “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”. Nada mais semelhante à descoberta dos link books de Myst  que a descoberta da fantástica civilização de Tlön por Borges e Bioy Casares no conto. O segundo é “La biblioteca de Babel”, que trata da descrição da biblioteca em que estão guardados todos os livros do universo e, consequentemente, a descrição detalhada de todos os universos possíveis, como aponta a cosmogonia de Myst. Por último, “Pierre Menard, autor del Quijote” explora muito bem a ideia de como dois livros textualmente idênticos podem ser obras completamente diferentes, ajudando a entender a unicidade dos Description books.

Como explorar o universo de Myst  nos levaria muito tempo, encerro a coluna de hoje recomendando o jogo para aqueles que ainda não o conhecem. Como os primeiros podem ser um pouco datados em gráficos e jogabilidades, o que assusta os mais novatos do mundo dos games, comecem pelo remake do 1, que se encontra na Steam – e nos mares piratas. O Myst V também oferece uma jogabilidade aberta e pode servir de introdução até os mais antigos, o II e III – já que o primeiro tem um remake.

Pedro Sasse

1893 é Agora: Inglês de Sousa e a atual política

Há algum tempo, mencionei por aqui um comentário de Machado de Assis sobre a conveniência de ser esquerdista ou direitista na política brasileira. Os ânimos exacerbados e as posturas passionais, que ainda perduram (com alguns de nós escolhendo um lado ou outro e outros decidindo não escolher), muitas vezes afastam-nos de uma postura mais comedida. Para resumir, ainda estamos longe de uma reconciliação. Mas o que talvez achemos ser um momento novo na nossa história política, na verdade, não é. Certas posturas repetem-se em tempos de transição, como este em que vivemos.

Por isso, é possível encontrar este mesmo espírito hostil num conto do escritor paraense Inglês de Souza (1853-1918), chamado “Amor de Maria”, publicado no livro Contos Amazônicos, de 1893:

“Vila Bela é antes uma povoação do que uma vila. Três pequenas ruas em que as casas se distanciam dez, vinte e mais braças umas das outras; se estendem, frente para o rio, sobre uma pequena colina, formando todo o povoado. No meio da rua principal, a capelinha que serve de matriz ocupa o centro de uma praça, coberta de matapasto, onde vagam vacas de leite e bois de carro. Quando eu lá morava, as famílias da vila entretinham as melhores relações, e não acontecia o que agora se dá em quase todas as nossas povoações, onde os habitantes são inimigos uns dos outros. A maldita política dividiu a população, azedou os ânimos, avivou a intriga e tornou insuportável a vida nos lugarejos da beira do rio”.

Inglês de Sousa viveu um momento de transformações políticas, religiosas e literárias no Brasil. A guerra do Paraguai, de 1864 até 1870, a abolição da escravatura em 1888, a proclamação da república em 1889 e a própria virada do século trouxeram mudanças irreversíveis, e sentimos ainda hoje suas consequências. No conto, o narrador aponta os mesmos problemas que vivemos atualmente: a auto-infligida segregação por conta de escolhas partidárias. Entre este post e a publicação do conto, já se passaram 124 anos, mas a atualidade das palavras do narrador é surpreendente:

“Depois que o povo começou a tomar a sério esse negócio de partidos, que os doutores do Pará e do Rio de Janeiro inventaram como meio de vida, numa aldeola de trinta casas as famílias odeiam-se e descompõem-se, os homens mais sérios tornam-se patifes refinados, e tudo vai que é de tirar a coragem e dar vontade de abalar destes ótimos climas, destas grandiosas regiões paraenses, ao pé das quais os outros países são como miniaturas mesquinhas. Sem conhecerem a força dos vocábulos, o fazendeiro Morais é liberal e o capitão Jacinto é conservador”.

Não só surpreende as palavras, mas também o conselho. Chamamos uns e outros de esquerdistas ou direitistas, comunistas ou liberais, conservadores ou progressistas, mas mal sabemos “a força dos vocábulos”, ou melhor, o significado destes rótulos. Mal paramos para ouvir o que o outro tem a dizer, simplesmente por achar que não há nada digno de ser ouvido. O conselho do narrador, no fim das contas, é simples, mas estar disposto a segui-lo é difícil:

“Por mim, entendo que era melhor sermos todos amigos, tratarmos do nosso cacau e da nossa seringa, que isso de política não leva ninguém adiante e só serve para desgostos e consumições. Que nos importa que seja deputado o cônego Siqueira ou o doutor Danim? O principal é que as enchentes não sejam grandes e que o gado não morra de peste. O mais é querer fazer da pobre gente burro de carga, vítima de imposturas!”.

Sem Técnica, Tornar-se Escritor é Pseudo-Objetivo

Venho por algum tempo defendendo que, pra se tornar escritor, é preciso dominar as técnicas narrativas – isso porque nem preciso mencionar que é necessário, antes de tudo, ser criativo. A mais básica dessas técnicas é saber ler e escrever. E isso inclui dominar ortografia, pontuação, coerência, coesão e conhecimento de mundo (ainda que seja pra, logo depois, abrir de mão de tudo isso ao criar uma história).

O problema é que isso é, como disse, básico. É preciso ir além.

O que chamo de técnicas narrativas são todas as convenções e estratégias literárias de que lançamos mão na hora de criar uma história. A primeira coisa a se fazer são perguntas:

Que efeito eu quero produzir com a minha história?

Como chegarei a este efeito ao juntar a forma e o conteúdo?

Quão original é o que pretendo escrever?

Como devo começar minha história? Como devo terminá-la?

Qual será a função de cada personagem na trama?

Qual  é o leitor que almejo pra minhas histórias?

Certamente, estas perguntas não serão respondidas de uma só vez. Nem mesmo serão elas sanadas antes de se começar a escrever. Entretanto, elas – e outras, a depender da singularidade de cada história – devem servir como guias, como portos seguros, pra que nós não nos percamos na criação de narrativas insossas ou de personagens rasos, como tenho visto aos montes no Wattpad e afins.

Há quem diga que, uma vez tendo inspiração, a técnica não importa. Isso é bem controverso, e talvez nunca será ponto pacífico. Contudo, a técnica permite eliminar erros grosseiros assim como afastar nossa escrita de superficialidade e do amadorismo. Pra não ser um pseudo-escritor, dominar as técnicas narrativas é estar bem mais perto de fazer a diferença dentro de uma literatura que, hoje, carece de histórias originais.

por Luciano Cabral.

Caixas de Sobra – Season Finale

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No auditório, ainda no primeiro piso, Passos viu de soslaio a palestra ministrada pelo vendedor platinum A para novos integrantes. O esquema em pirâmide, produtos cosméticos, eletrônicos, dietéticos. Programas de fidelidade, acúmulo de pontos. O palestrante contava como quadruplicou o salário em dez anos. A acústica do prédio era tal que aqueles que andassem nas lojas e escritórios do térreo podiam ouvir cada palavra proferida no auditório, mas sem que chegasse a ser incômodo. Ali havia duas agências dos maiores bancos do país. Um escritório de advocacia, um banco menor especializado em investimentos em ativos. No segundo andar, de fácil acesso por uma escadaria espaçosa ou pelo elevador panorâmico, havia o restaurante, o escritório do plano de saúde e a gigantesca academia para funcionários.

Frente aos quatro elevadores com ascensoristas, Passos, apesar de bem escoltado, fez sozinho o trajeto que bem conhecia. Apenas o terceiro elevador subiria para além do sétimo andar – mas esse nunca vinha ao térreo e não podia ser chamado, mas descia sozinho dependendo dos rostos reconhecidos nas câmeras. Quando entraram no espaço espelhado, Issacar apertou as mãos do funcionário e anunciou:

– Benjamin, de São Paulo. O Patriarca deseja vê-lo.

Era no oitavo andar. Enquanto subiam, o próprio ascensorista os revistava com detector de metais. Quando o elevador parou, ainda levou alguns minutos para que a porta fosse liberada.

– Ben, quantas vezes viu o Patriarca?

– Apenas uma.

– Depois de hoje, terá visto mais que eu.

O cheiro leve de incenso verbena expandia-se pelo espaço amplo e naturalmente iluminado. Issacar desapareceu no elevador, e Passos se viu sozinho com o segurança que vestia terno cinza Dolce & Gabbana, e lia A Metamorfose.

– O Patriarca o aguarda na próxima sala.

O apartamento gigantesco ocupava todo o oitavo andar. As paredes externas eram de vidro, a decoração moderna e sutil, móveis arredondados, tudo branco, tapetes redondos felpudos. O som de uma pequena fonte esculpida trazia tranquilidade ao local. Passos sentia dor ao caminhar. O salão seguinte, com uma piscina interna ao redor de uma ilhota com sofás e uma mesa de centro, fazia frente a uma cozinha americana.

– Fique à vontade, Benjamin. Ou prefere que o chame, só aqui, de Passos?

A última vez que a vira, tinha cerca de setenta anos. Não parecia ter mudado, apesar de estar agora com oitenta, talvez oitenta e dois. Ela estava elegante, os cabelos brancos cortados em chanel, joias sutis. Trazia do bar uma bandeja, que repousou na mesa de centro com um bule e duas xícaras de porcelana chinesa. Convidou Passos a se sentar, e bebericou o chá.

– Tenho um presente para você.

Na mesa, ao lado de um vaso com tulipas, havia uma caixinha preta. Quando abriu, Passos viu um relógio Cássio novo.

– Não é das melhores marcas. Vamos falar do seu trabalho inacabado?

A tranquilidade do Patriarca o deixou desconcertado. O clima era perfeito, o ar condicionado, o aroma, o barulho de água.

– Símbolos. Quanto mais velhos ficamos, mais eles nos fascinam. Lamento que tenha deixado Pandora ver o conteúdo da caixa. Sabe o que deve fazer.

– Por que vocês mesmos não a matam?

– Porque você ainda está dentro. Quando se sobe além de certo ponto, não há mais descida. E você continuou subindo. E continuou. O mal entre nós precisa ser purgado, e neste caso precisa ser pelas suas mãos. – bebericou o chá – Quando pediu para falar comigo, já deveria saber que não negociaria, muito menos ditaria as regras. Oh, Benjamin, como eu te amo.

Apesar do ar condicionado, Passos começou a suar.

– É a última proposta? – perguntou.

– Não é proposta. É uma designação. Não se nega uma designação.

Passos devaneou com o olhar fixo na água que lhes rodeava.

– Eu… faço.

– Servo bom e fiel.- ela sorriu – Manaus. Na saída você receberá a passagem e o voucher para sete dias no melhor hotel. Quanto ao resto, improvise. Não vai beber seu chá?

Passos tocou os lábios no líquido quente. Chá inglês de camomila, mel e baunilha. Quando se levantou para sair, viu, sobre uma mesa de vidro num canto, uma caixa. Uma caixa daquelas. O formato e peso que bem conhecia.

Teve calafrios.

Lucas M. Carvalho

E não perca, na próxima quarta, às 20h, mais um episódio de Caixas de Sobra.

Caixas de Sobra – Ep. 37

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São Paulo surgiu como uma nuvem confusa. Lembrança. Tráfego. Luzes borrando o céu cinza. Do povoado à mata, da mata à capital das fachadas de vidro. Concreto. Buzinas. Entre a Ipiranga e a Avenida São João apenas as memórias dolorosas dos sorrisos dela. Santos Passos tentava se acomodar no sedan preto que substituíra as motos enquanto o passado arranhava as grades de sua mente.

Naquela noite ela era um cervo entre a folhagem de outono. Em suas mãos, maleta pequena, das que indicam volta rápida ou nova vida. A voz mecânica do aeroporto indicava voo pra Manaus. “Mas lá dentro só tinha…”. Os dedos de Santos Passos selaram os lábios, sua pele estremeceu diante do tato que se perderia entre quilômetros de um Brasil eterno para todos os lados. O destino era o Norte. A última barreira contra a civilização. Entre as esquinas de cimento e luz, toda sombra era um braço dos onze tateando por Pandora, pela responsável por toda aquela ruína. O Norte a protegeria, entre seus caudalosos cachos de rio, dentro de seu cavernoso estômago de madeira e mato. “Eu te busco quando isso tudo acabar. É questão de meses. Eu preciso conversar com eles. Quitar essa merda dessa dívida. Eu só preciso de mais alguns compradores. Ouvi dizer que a baixada fluminense é um bom lugar pra encontrar o tipo de gente que eu preciso…”. O cervo parte para a impenetrabilidade da selva. Só seu aroma perdura no saguão de embarque. “Mas lá dentro só tinha…”.

“Vem pro Rio, Santos, é a melhor opção agora. Eu consigo algo pra você… Você fica com algumas das minhas caixas em troca. Enquanto você continuar mandando dinheiro, eles não vão gastar muito tempo correndo atrás disso. Talvez até esqueçam dela. Chegando na rodoviária liga pra minha prima Marlene, ela te abriga uns dias”. Santos Passos sente a chuva no rosto ao embarcar na rodoviária Tietê. Santos Passos sente o Sol lamber seu rosto ao desembarcar na rodoviária Novo Rio. Nova vida. Santos Passos bebe cerveja no sítio de Judas em Xerém. “Você acha que os outros onze do Rio não vão ficar sabendo que você me ajudou a sumir de São Paulo?”. Judas ri. Parece que sob a sombra da jaqueira o mundo é mais simples.

Dez anos de uma paz pastosa. Dez anos de calor carioca cozinhando a alma. Dez anos de total silêncio na floresta. O tempo é longo. O sentimento é úmido, mofa com o tempo. Santos Passos se acostuma. Cochila no carro desgovernado de sua existência. Esquece dela. Do passado. Até que um despertador toca num restaurante qualquer da estrada. E as caixas, de súbito, parecem pesadas demais.

“Acorda, Ben. Seu problema é passar tempo demais dentro da sua cabeça. Aí dentro não tem muita coisa que preste. Relaxa que a gente costura sua amiga caipira. Vai lá ter a conversa que você tanto pediu. E aproveita, pode ser sua última…”. Desperta do transe diante do local que deu início a tudo. Atravessa o saguão da empresa. Piso, vidros, funcionários. Tudo são tentáculos de um passado que tenta arrastá-lo para dez anos atrás.

Pedro Sasse

E não perca, na próxima quarta, às 20h, mais um episódio de Caixas de Sobra.

SOMA e a ontologia da humanidade

Aviso: esse post pode conter spoilers.

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A primeira vez que eu olhei o título do jogo ainda em um anúncio de produção, como leitor dos clássicos da distopia, não pude deixar de associá-lo à antológica obra de Huxley, Admirável Mundo Novo. Nela, penetramos em uma sociedade que conquistou, ainda que de forma questionável, um estágio utópico de desenvolvimento. Sem mais espaço para violência, tristeza e doença, nesse novo mundo todos vivem apenas para seus próprios prazeres: sexo livre, cinemas sensoriais, esportes em equipe e drogas em grande quantidade. Bom, droga para ser exato. O termo soma é utilizado na narrativa para designar um fármaco distribuído pelo governo a todos os seus cidadãos que, semelhante a um opiáceo, tem a capacidade de induzir longos estados de euforia e bem-estar, e, com isso, impedir o surgimento de insatisfações. Sexo, drogas e cinema de qualidade, onde fica a distopia, então?

O primeiro capítulo da obra, antes mesmo de nos apresentar os aspectos positivos dessa sociedade, já deixa claro o preço a se pagar por ela: o Estado controla a produção de seus cidadãos em larga escala. Poucos zigotos são utilizados para criar uma “fornada” de gêmeos idênticos com, muitas vezes, mais de 30 cópias. Depois, o feto passa por um processo rigoroso de controle bioquímico para garantir diferentes níveis de desenvolvimento físico e neurológico, formando, assim, as castas da sociedade. Os Alphas são a perfeição, mental e fisicamente, do corpo humano – estes estão no topo. Por outro lado, os Deltas, possuindo baixa capacidade cognitiva, corpos minguados e muitas cópias, são a base da pirâmide. Além disso, há lavagem cerebral e condicionamento behaviorista para garantir certos códigos de conduta. Então voilà: temos aí uma sociedade distópica.

Ainda que esse processo seja bem barra pesada, o elemento que mais se destaca na narrativa não é a desigualdade social arquitetada nem a falta de ética científica por trás do processo. O destaque está no resultado final dessa suposta utopia: sem mais dor, tristeza e raiva, tendo os maiores prazeres ao alcance da mão, sem mais objetivos, dúvidas existenciais, poder criativo, o que vemos ali ainda são humanos? O que nos define enquanto humanos? Esse é o questionamento compartilhado entre as duas histórias.

SOMA, de início não parece dar sinais de que vá nos levar a nenhum lugar parecido com o exposto em Admirável Mundo Novo. De fato, o jogo tem início no Canadá contemporâneo: um indivíduo de nome Simon Jarret sofre um acidente de carro e, devido a sequelas em seu cérebro, voluntaria-se para um projeto de escaneamento cerebral experimental que poderá salvar sua vida. Durante o processo, ele desmaia para, em seguida, despertar em um cenário de horror: uma espécie de centro de pesquisas semidestruído, PATHOS-II.

Misturando survival horror, mistério e ficção científica,  o jogo cria uma narrativa interessante na qual podemos acompanhar passo a passo as descobertas de Jarret sobre o que o levou àquela situação. Podemos resumir essa jornada na seguinte proposta: Jarret descobre que seu corpo morreu há muitos anos, que está em um futuro apocalíptico no qual a Terra foi devastada por um cometa, e aquela base de pesquisa submersa em que se encontra é a última guarida da humanidade. Simon vai além e percebe que o problema é ainda mais complexo: não é exatamente seu corpo apenas que morreu, mas também sua mente. Quem chega a essa conclusão não é exatamente Simon, mas o escâner feito de seu cérebro, recuperado dos primeiros arquivos da pesquisa.

Chegamos aqui ao ponto central do jogo. A cópia sente-se Simon, pensa como ele, tem memórias, capacidade criativa e emoções. Mas não é exatamente ele. Há, aí, algumas questões envolvidas. Primeiro, está o problema biológico. Podemos ser humanos ainda que não reste em nós nenhum resquício de DNA humano, ou até mesmo matéria orgânica?  Podemos ser humanos ainda que sejamos apenas dados em uma máquina? Esse problema leva a outro que se relaciona com uma suposta essência de humanidade: somos apenas o somatório de nossas memórias e experiências ou há um fator transcendental envolvido em nossa condição de humanidade?

A última questão que quero levantar sobre o tema (ainda que haja outras abordagens do problema) talvez seja o pilar do jogo. Vamos partir do ponto de que seja possível copiar perfeitamente um indivíduo. Chamemos esse indivíduo de A e sua cópia de B. No momento da divisão, A e B seriam cópias idênticas, de tal forma que B nunca aceitaria ser chamado de B e reclamaria o lugar de A. Por algum tempo indeterminado, ambos teriam as mesmas experiências e, possivelmente, as mesmas reações à situação. Caso, contudo, A e B aceitem a situação e continuem a viver como esse estranho par do mesmo, em algum momento, ambos teriam se desenvolvido para dois indivíduos diferentes com memórias, ideias e sentimentos diferentes, ainda que biologicamente iguais.  Nesse momento, B seria outra pessoa.

Esse problema relaciona-se com a ideia já muito trabalhada por amantes da ficção científica do teletransporte via desmaterialização e rematerialização. Caso pudéssemos criar uma tecnologia capaz de escanear nosso corpo, destruí-lo e reconstruí-lo no nosso destino desejado, o indivíduo que lá chegasse não seria exatamente nós, mas somente uma cópia perfeita. Uma vez que o original tenha sido eliminado, nossa cópia seria um usurpador  perfeito, já que a única testemunha capaz de notar a diferença, nós mesmos, estaríamos mortos. O caso do teletransporte é menos problemático por uma questão, a Continuidade.

Se não há um A para colocar a individualidade do indivíduo em xeque, B dirá ser A – e vai crer nisso, e todos aceitarão. Como não haverá um A para se desenvolver independentemente desse B, para todos os efeitos, ele fará exatamente o que faria A em seu lugar. Daí a pergunta: B seria A? Em SOMA, a Continuidade é tão importante para o desenvolvimento da narrativa, que ao longo do jogo Simon Jarret investigará um culto que se forma em volta de seu conceito. Para entendê-lo, contudo, é necessário, antes, entender o motivo de sua formação.

Já que o mundo está em seus últimos momentos de vida, a pesquisadora Catherine Chun adaptou a tecnologia de cópia cerebral (utilizada em Jarret anos antes) e criou uma questionável salvação para a humanidade: escanear todas as mentes dos seres humanos ainda vivos – ou seja, os membros da estação – e colocá-las na Arca, uma espécie improvisada de Matrix utópica, na qual a versão virtual dos humanos viveria em paz e harmonia flutuando no espaço sideral a espera de uma civilização avançada capaz de ajudar o que restou da humanidade. Obviamente, a tripulação começa a passar pelos questionamentos que trabalhamos acima até que a saída, de tão obscura, pareceu clara: caso optassem pelo suicídio após o escaneamento, simulariam o efeito do teletransporte, mantendo a continuidade e seriam ainda únicos. Logo, suas versões B seriam A, e todos poderiam crer na ilusão de uma vida na utopia virtual. Quando Simon investiga este fato, todos já morreram há algum tempo. Mesmo Catherine está morta. Mas, embora tenha sido assassinada e não fosse parte do culto, ela o ajuda como uma cópia virtual.

A Arca, enquanto ambiente utópico artificial, ainda retoma o questionamento principal de Admirável mundo novo: nessa vida sem tempo, sem medos, sem futuro, ainda que consideremos as cópias virtuais como humanos, podemos considerar sua interação nesse espaço condicionado como uma forma de vida ainda própria da humanidade?

Um jogo de grande potencial filosófico, SOMA deve ser jogado. A imersão no ambiente é maravilhosa e o horror, embora secundário, é bem trabalhado. Ainda que o foco aqui tenha sido a questão existencial, SOMA é rico em diversas outras questões, desde inteligência artificial até religião.

Por último, para exemplificar como o jogo explora, até o limite, o potencial do questionamento ontológico, duas cenas são perfeitas:

Na primeira delas, Simon precisa transferir-se para um corpo mais apto a lidar com a pressão das profundidades marítimas. Mas, como vimos, não existe exatamente transferência, mas sim cópia – ele é um conjunto de dados. Após o fim da suposta transferência, ele tem o choque que o ajuda a entender o que realmente fez:

A segunda cena ocorre no fim do jogo. Guarde para seu próprio deleite se ainda quiser jogar com surpresas, e não leia o que escreverei a seguir. Simon precisa ligar a Arca e mandá-la para o espaço a fim de garantir que ela esteja a salvo da destruição do mundo. Antes, contudo, ele deve transferir a si mesmo e Catherine para lá. Novamente, a transferência é muito mais frustrante do que poderia ser e o fim do jogo é seco:

Fechamos assim o primeiro texto do Ludografia. Nesta coluna, eu, Pedro Sasse, trarei sempre alguma novidade ou velhidade do mundo dos games, dialogando com literatura, filosofia e sociedade. A gente se fala no próximo.

Boa leitura!

Polistórias: Amor

Amor é uma questão, sem dúvida. Para os gregos, parecia ser fundamental, tanto que cunharam, logo de cara, quatro palavras diferentes (e eles tem mais) pra não faltar amor para ninguém. Aqueles que sempre estão por perto nos momentos de aperto, aqueles que abraçam apertado, que sempre aparecem nas fotos com grandes risos e grandes lágrimas, que abrem a geladeira sem precisar pedir, todos esses são do grupo da Philia. Para os beijos roubados debaixo de uma árvore, para o suor frio e o suor quente, para aquela mistura de dor e felicidade, para o acordar, olhar para o lado e sorrir, esses são o Eros. No Stergo ficam os incompreensíveis sentimentos de união entre o tio chato que pergunta sobre os namoros, a vó que dá meias de presente de natal, o insuportável irmão mais velho e aquele cachorro meio cego há treze anos na família. Agora, se a coisa vai além das idas e vindas do coração, se é aquele que nasce pequeno lá no fundo da alma e inunda a gente de um sei lá o quê que dá até calafrio, se o sentido é plena devoção, aí você está na sublime presença do Ágape, aquele que quebra a vontade do homem.

Para nós, novos latinos, a situação é menos conceitual e mais pragmática. Vamos usando a palavra conforme a necessidade, sem economia desnecessária. Num dia é eu amo chocolate quente, e no outro Como Deus amou o mundo de tal maneira. Dizemos eu te amo para o irmão, para a irmã, para a amigo, para a avó e para o amante. Sem perceber, sempre fomos um pouco afins ao poliamor, jogando nas mesmas quatro letras todo objeto de nossa afeição.

Não é de se estranhar, assim, que os poetas vivam ensaiando nos seus versos a definição sempre imprecisa desse metamorfo sentimento. Basta uma tentativa de apreensão para que surja, em um prédio cinza perdido na multidão de concreto da cidade, um coração solitário que resolva cair de amores pela Lua. Ou por um quadro. Ou por aquela pessoa que só vimos uma vez num sonho, ou à primeira vista, mas que nunca conseguimos esquecer. Aí já era. O sentido do amor fugiu outra vez.

Nesse ciclo do Polistórias, escreveremos tendo isso em mente. Da mais careta à mais inusitada situação, empreenderemos a frustrada missão de representar a pluralidade dessa gigantesca palavra chamada amor.

Caixas de Sobra – Ep. 29

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Passado e presente se confundiam em um espiral de vozes e imagens. A fogueira e cantoria da vila. O dia das crianças no shopping. A primeira entrega. Pandora e sua mania de conversas com os personagens da TV. Os pedaços de corpo no hotel. Os gemidos abafados atrás da porta. O jagunço sem fôlego que cruza a entrada correndo.

– Acertaram o Das Dores lá perto do riacho, chefe. Ou tem milico atrás do equipamento ou é o tal delegado que tá no pé do Caixa.

A tropa, como esteira de produção, põe-se em marcha: embala, guarda, arma, veste, vigia. Na coreografia precisa da empiria, apenas o líder mantém-se estático. Seus olhos captam cada tremor na carne de um Santos Passos em desespero contido.

– Ainda estou esperando uma história, senhor Caixa. Os homens estão subindo e vamos você e eu pro inferno juntos se ela demorar.

Angélica tenta falar. É dissuadida pela sutil tensão no dedo do gatilho. Do lado de fora, os pássaros noturnos alertam no revoar de suas asas o avanço de corpos estranhos arrastando-se pela sombra.

– Você vai confiar em mim porque eu estou desesperadamente mais fodido que você… chefe.

A fala de Passos é puro reflexo medular. Uma nascente de palavras surge em sua boca, longe de qualquer reflexão prévia. Apenas descobre o que fala quando ouve a voz distante. Memória e pensamento, agora, dão lugar a um chiado agudo que se sobrepõe a todos os sentidos.

– Você vai confiar em mim porque a última coisa que eu preciso é de mais gente atrás de mim. Quem tá subindo não é a polícia, nem o exército, nem nenhuma força com que vocês estão acostumados a lidar. Estou tentando avisar desde que você chegou. Os onze estão vindo pra recuperar o décimo segundo. É possível sentir na tensão da mata. Eu não estou fugindo da polícia por medo de ser preso, você entende? A prisão seria um lugar de paz. De descanso. Mas quem está atrás de mim não encontraria dificuldade em me fazer acordar com doze furos nas costas no pátio de uma penitenciária. Quem está atrás de mim não encontraria dificuldade em invadir uma área tomada por forças armadas nem em mandar pelos ares esse barraco. Eles não estão interessados em dinheiro, nem poder, nem prestígio, nem sexo. É uma ideia. Inabalável. Incansável. Me perseguindo em cada pesadelo, atropelando essa realidade de papelão em que vocês vivem. Foi o que fizeram no hotel. E antes disso em São Paulo, quando ela abriu a… É por isso que você vai confiar em mim. Você vai querer me lançar como um pedaço de carne quando os cachorros avançarem raivosos na sua direção. Você vai querer que eu seja um problema distante quando eles chegarem aqui.

A arma passa da mesa para o coldre. Os olhos, antes focos fixos, são agora pequenas redes tentando captar no ar o perigo que pressentem. Com certa resistência, o dito chefe estende uma maleta metálica para Angélica.

– Cachorro louco esse aí. Tenho certeza que vai se dar bem com o Pablo.

Tiros ao longe indicam a hora de partir.

Pedro Sasse

Não perca, na próxima quarta, 20h, mais um episódio de Caixas de Sobra.

Caixas de Sobra – Ep. 28

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O rosto de Passos estava emoldurado por suor. A testa estava tão quente que mal ouvia as palavras de Angélica. Ele não compreendeu bem o que pretendia, mas funcionou. Era só manter a calma. O chefe se inclinou para frente exalando um cheiro de Leite de Rosas.

– Mataram um dos nossos, é?

– Sim. Não teve o que fazer. Mas a gente-

– Cala a boca, piranha. Deixa o amigo caixa falar.

 

O suor brotou abundante na testa e caiu no olho. Passos respirou fundo e começou. A ponta dos dedos tremiam. Abriu a boca e falou. Cada som atropelava o seguinte, como se vomitasse. Outra gota pingou do queixo e se avolumou na superfície de madeira. Mais algumas e a poça encostaria no cano da arma. Ao terminar, o chefe girou a arma e disse:

– Senhor caixa, você vai ter que contar tudo de novo. Não tô entendo nada.

– Desculpa.

– Não precisa ficar nervoso. É só falar uma coisa de cada vez.

Santos enxugou a testa com a mão trêmula e engoliu o resto de saliva na boca. Olhou de soslaio. O rosto de Angélica era impenetrável. Não havia rastro de piedade nos olhos. O chefe estalou a unha no coldre da arma. O buraco escuro apontado para o peito de Passos esfriava o sangue.

– Vai por mim, caixa. Se tivesse que passar você, já teria passado.

Santos encolheu na cadeira como uma lesma coberta de sal. Ia meter a mão no bolso. Não o fez. Podiam entender mal. O chefe passava legítima sensação de tranquilidade. Mas o dedo indicador de cada um dos capangas estava no gatilho. Alguns pressionavam até a folga de segurança. A maioria deles estava ali não por necessidade, mas pelo hábito de matar. Começava com um gato, depois um primo numa briga. Não conseguiam parar. Poderiam disparar ao som de uma tosse. Encherem seu corpo de buraco.

Não havia nada no bolso além dos restos de Tzu, lembrou. Uma página riscada com o desenho de giz de cera.

Santos respirou fundo e abriu a boca. Agora foi pior. As palavras não saíam. Pareciam ter entupido a garganta.

– E-E-Eles. Sã-sã-

– Não tô entendendo porra nenhuma.

O chefe pegou a arma como se fosse feita de papel.

– São onze.

– Que onze? De que porra ele tá falando, Angélica?

O suor se misturou com as lágrimas que se acumulavam no canto dos olhos.

– Agora vai chorar?

Passos deslizou os dedos para debaixo da mesa. A mão se encaixou nos bolsos. Havia alguma coisa embolada num monte de contas. Um terço. Ele lembrou. A velhinha falou rápido. Só deu tempo de envolver a caixa e ir embora. Nunca rezou um terço. Passos ia à igreja durante a infância. Nunca gostou de rezar. Inclinava a cabeça. Pensava no jogo de futebol ou na menina que estava no banco lá trás. Só gostava das vezes que o sermão era sobre milagres. Os mártires e profetas pareciam super-heróis.

O cano encostou na testa. Santos espremeu o cordão entre os dedos. O fio se arrebentou.

– Se não vai falar, vou te ajudar. Vou desentupir sua garganta.

Sentiu o ferro descer ´pelo nariz e tocar a ponta do lábio.

– Os onze – engolindo lágrimas, falou.

O canto de Dona Tereza lá fora deu lugar uma turba de pernas. Uma sucessão de armas engatilhadas. O murmúrio dos homens engolido pelo gemido das mulheres lá fora.

Os olhos de Passos ardiam afogados no escuro. Ele se recusou a abri-los.

Jonatas Tosta

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