Caixas de Sobra – Ep. 37

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São Paulo surgiu como uma nuvem confusa. Lembrança. Tráfego. Luzes borrando o céu cinza. Do povoado à mata, da mata à capital das fachadas de vidro. Concreto. Buzinas. Entre a Ipiranga e a Avenida São João apenas as memórias dolorosas dos sorrisos dela. Santos Passos tentava se acomodar no sedan preto que substituíra as motos enquanto o passado arranhava as grades de sua mente.

Naquela noite ela era um cervo entre a folhagem de outono. Em suas mãos, maleta pequena, das que indicam volta rápida ou nova vida. A voz mecânica do aeroporto indicava voo pra Manaus. “Mas lá dentro só tinha…”. Os dedos de Santos Passos selaram os lábios, sua pele estremeceu diante do tato que se perderia entre quilômetros de um Brasil eterno para todos os lados. O destino era o Norte. A última barreira contra a civilização. Entre as esquinas de cimento e luz, toda sombra era um braço dos onze tateando por Pandora, pela responsável por toda aquela ruína. O Norte a protegeria, entre seus caudalosos cachos de rio, dentro de seu cavernoso estômago de madeira e mato. “Eu te busco quando isso tudo acabar. É questão de meses. Eu preciso conversar com eles. Quitar essa merda dessa dívida. Eu só preciso de mais alguns compradores. Ouvi dizer que a baixada fluminense é um bom lugar pra encontrar o tipo de gente que eu preciso…”. O cervo parte para a impenetrabilidade da selva. Só seu aroma perdura no saguão de embarque. “Mas lá dentro só tinha…”.

“Vem pro Rio, Santos, é a melhor opção agora. Eu consigo algo pra você… Você fica com algumas das minhas caixas em troca. Enquanto você continuar mandando dinheiro, eles não vão gastar muito tempo correndo atrás disso. Talvez até esqueçam dela. Chegando na rodoviária liga pra minha prima Marlene, ela te abriga uns dias”. Santos Passos sente a chuva no rosto ao embarcar na rodoviária Tietê. Santos Passos sente o Sol lamber seu rosto ao desembarcar na rodoviária Novo Rio. Nova vida. Santos Passos bebe cerveja no sítio de Judas em Xerém. “Você acha que os outros onze do Rio não vão ficar sabendo que você me ajudou a sumir de São Paulo?”. Judas ri. Parece que sob a sombra da jaqueira o mundo é mais simples.

Dez anos de uma paz pastosa. Dez anos de calor carioca cozinhando a alma. Dez anos de total silêncio na floresta. O tempo é longo. O sentimento é úmido, mofa com o tempo. Santos Passos se acostuma. Cochila no carro desgovernado de sua existência. Esquece dela. Do passado. Até que um despertador toca num restaurante qualquer da estrada. E as caixas, de súbito, parecem pesadas demais.

“Acorda, Ben. Seu problema é passar tempo demais dentro da sua cabeça. Aí dentro não tem muita coisa que preste. Relaxa que a gente costura sua amiga caipira. Vai lá ter a conversa que você tanto pediu. E aproveita, pode ser sua última…”. Desperta do transe diante do local que deu início a tudo. Atravessa o saguão da empresa. Piso, vidros, funcionários. Tudo são tentáculos de um passado que tenta arrastá-lo para dez anos atrás.

Pedro Sasse

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A Chegada (2016)

a-chegada

Quebrando a expectativa dos filmes de invasão alienígena produzidos até então, A Chegada, dirigido por Denis Villeneuve, não se detém em cenas de caos e de reações histéricas frente à ameaça. Pelo contrário, os acontecimentos são tratado de forma sutil e pessoal, sob a perspectiva da doutora Louise Banks (Amy Adams), uma linguista renomada contactada por militares para traduzir os ruídos produzidos pelos seres do espaço.

A dúvida que alimenta o longa metragem – em torno das 12 naves que pousam ao mesmo tempo em diferentes pontos da Terra – é saber a intenção destes seres. Sem grandes manifestações agressivas, as naves apenas esperam a entrada de humanos para um breve e confuso contato. Uma câmara dividida por uma película, através da qual é possível ver a densa atmosfera dos alienígenas, é o cenário de todas essas interações, que se repetem e progridem dia após dia. Os seres são chamados de heptapodos, por possuírem sete pernas. Eles possuem dois tipos de linguagem: uma falada, que é descrita como não tendo ordem de palavras, e uma escrita, baseada em formas circulares. A segunda forma é essencial para a compreensão da trama.

Todo o desenvolvimento do contato é acompanhado por uma crescente desconfiança, fruto das experiências passadas da própria humanidade, em que todo o encontro de civilizações resultou na subjugação do grupo menos desenvolvida. Forças militares acreditam que as 12 naves almejam colocar as nações umas contra as outras, para que a própria raça humana possa mostrar-se mais frágil.

Durante a primeira metade do filme, talvez seja difícil ligar os pontos do enredo sem um conhecimento de linguística. Conforme a doutora Banks progride na compreensão da linguagem dos heptapodos, são mostrados princípios como a hipótese de Sapir-Whorf (que estabelece uma ligação entre a língua e a forma de organizar o pensamento, afetando diretamente a percepção de mundo do falante); ou o funcionamento da primeira articulação da linguagem. Contudo, por mais que haja certas dificuldades, ao fim da trama tudo se esclarece.

O enredo vale-se, desde o início, de explorar um drama pessoal da protagonista. A forma como esse drama se encaixa no enredo maior, num jogo entre passado e futuro, é simplesmente genial. Conforme a doutora Banks aprende a linguagem dos heptapodos, sua compreensão do tempo muda, fazendo passado, presente e futuro serem um só. Assim a conexão entre língua e cognição torna-se transcendente.

A tudo isso soma-se uma bela fotografia, boas atuações e um design interessante para as naves e para as criaturas. Numa cena específica, quando finalmente dão indícios de suas verdadeiras intenções com a visita à Terra, os alienígenas são reveladas de corpo inteiro.

Um dado pertinente: o filme é baseado no conto “A História da Sua Vida”, de Ted Chiang.

Lucas M. Carvalho

Caixas de Sobra – Ep. 36

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Na garupa da moto, meu corpo vai com os Onze, mas minha mente não obedece, vai contra eles, vai pra trás, pro passado, vinte anos, eu me pergunto quanto é o bastante? quem saberia responder esta pergunta neste mundo de merda e de números em que se sobrevive? em que minha importância era medida por fileiras de dígitos, de sorrisos por dinheiro, de gorjetas generosas, não aguentava mais aquilo, eu mesmo havia aberto a caixa, mas não podia arcar com isso, pôr a culpa em Pandora era bem mais fácil, sabia dos riscos, sabia bem o que era estar entre os Onze com uma taurus engatilhada na direção da própria testa, mas não tive coragem, Marlene cansou de perguntar de onde vinha o dinheiro, eu e ela sabíamos que caixas não podiam ser tão lucrativas, fosse o tamanho que fosse, que falta que meu filho faz agora, queria abraçá-lo como nunca fiz, usar as palavras leves que nunca usei, livrar-me dessas caixas e correr ao encontro dele como nunca corri, Brasil, Colômbia, Venezuela, Chile, Bolívia, Guiana, Argentina, México, Portugal, Espanha e eles queriam me mandar pra Angola, mas dizer não é assinar uma sentença, é fácil abrir a caixa de Pandora mas é doloroso fechá-la, a corporação era maior do que eu imaginava, onze é só um número dentro muitos outros, enquanto houver quem abra a porta pra receber as entregas, a corporação continuará crescendo, Angélica leva a mão ao abdômen toda vez que a moto trepida, ela é mais forte do que parece, seu ferimento tem o tamanho da minha ganância e eu quem deveria ter levado o tiro, não ela, mas ainda não acabou, nem pra ela e nem pra mim, consigo enxergar uma luz no fim da estrada, a mesma que deixamos pra trás, ironicamente, percebo que seria melhor ter continuado na completa escuridão.

Luciano Cabral

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Caixas de Sobra – Ep. 35

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As luzes de onze lanternas oscilantes não estavam na mata, mas impressas em sua vista. Os calafrios talvez acusassem uma queda na pressão. A dor na palma da mão era grave, pulsando junto com a vida enraizada naquela terra, junto com a dor de Angélica.

– Quantos estão aqui? Todos?

– Você sabe que não.

– Pensei ter visto…

Angélica cai. Passos não tem vontade de socorrê-la, mas de cair junto. Lembrou-se do dia em que jurou, olhando o registro de Simeão, que ele nunca lhe poria as mãos vivo. Por muitos anos carregou uma Taurus 85S .38 milímetros com uma única bala na cintura. Sentia que este era seu maior segredo, confidenciado apenas àquele projétil de liga de chumbo. Sentia que, se houvessem outros, o poder do segredo seria diluído. A bala não era para Simeão, era para ele próprio, um último deboche à corporação. Porém, um dia, há muitos anos, pouco antes do casamento, lançou a arma ao mar.

– Porque as coisas, na vida real, não são tão simples…

Ajudou Angélica a levantar. Ela soluçava.

– Quem são eles, Passos?

– Me perdoa, meu anjo. Me perdoa.

O sangue esfriando, a dor aumenta, a escuridão parece mais terrível. Lembrou-se de que alguém da comunidade, certa vez, comentou que essas florestas são infestadas de cobras. Logo chegaram à trilha mais aberta, e viram, ao lado duma moto tombada, a figura estática como a silhueta do ceifador. Issacar ou Zebulom?

– Ele quer negociar. – disse Simeão.

– Não sabia que negociávamos. Você nos decepcionou, Benjamin.

Passos sentiu um fraquejar, quase implorou, mas cerrou os dentes de raiva e não baixou a cabeça. Agora, mais do que nunca via os mínimos detalhes da bela taurus: o tambor prateado, o gatilho, o punho em polímero. A corrosão implacável da água.

– Suba na moto comigo. Ela vai com Simeão.

Lucas M. Carvalho

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Caixas de Sobra – Ep. 33

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É uma terça de tarde. Santos caminha junto a Simeão pelo acostamento. “Uma lição importante do trabalho. Eu já consegui mais clientes que uns três de vocês juntos, que porra de lição é essa que se aprende depois de já estar cascudo?” Simeão não responde. Seus lábios sussurram Blue Moon enquanto o dedo com o grande anel de prata batuca a lateral da pasta.

18 anos mais tarde o rio arrasta o sangue de Angélica, e Santos Passos é apenas uma sombra debatendo-se contra a natureza. Os tiros, antes cantando de tronco em tronco dão lugar a um silêncio de caça. Cada moita guarda seu possível predador a espera de um galho quebrando num lugar qualquer da floresta. Santos Passos sente que, há demasiado tempo, nada no sangue dos outros, sente que é hora de nadar em seu próprio sangue.

É uma terça à noite. Um português de camisa branca manchada os conduz aos fundos do armarinho. A funcionária sorri para Santos Passos. Ele pergunta o preço do relógio de pulso. O português balança a cabeça e gesticula. Uma das Caixas está vazia sobre a mesa. Simeão abre as travas da maleta. “A última lição é a mais importante, Ben. É o pilar de todo o esquema. É uma lição ancestral. Os gregos já a conheciam…”. Ele termina de colocar suas luvas de couro e retira uma lâmina fina da maleta. Cabo de marfim. Geburah. “Uma vez a caixa é aberta, Ben, a morte é liberada no mundo”.

O corpo de Angélica está sobre uma pedra. A água circunda os joelhos de um Santos gasto. A lua cria as curvas da estátua estoica que ela mesma se tornou. Os olhos buscam entre as gotas da chuva o rosto do algoz. “É isso que você quer?”.  A voz é pura alma escapando do corpo cansado. “É isso? Não vou mais correr! Eu quero que você olhe na minha cara. Eu quero ver sua cara e sentir seu cheiro enquanto você me mata…”. O lobo sai das sombras. Pelo eriçado. Passo a passo vence o rio até que entre os rostos de presa e predador fique apenas a espessura da tensão. Nada em Simeão mudou em duas décadas de perseguição. Talvez apenas estivesse mais oco. Menos humano. Menos mortal. Talvez fosse apenas um pesadelo. “Você conhece a lição, Ben…”. A Geburah cruza o ar como um fogo fátuo piscando na mais solitária noite. Apenas diante da morte a total clareza da última lição atinge sua mente. A lâmina é freada atravessando sua mão. “Espera! Eu… eu… eu sei onde achar ela. Eu cansei disso. Eu não vou mais… eu… porra, Simeão, eu vou cumprir esse jogo doentio de vocês. Mas primeiro eu quero falar com o chefe… e… e a garota na pedra precisa sobreviver”.

É uma terça e um gordo treme em passos lentos de recuo. Há dois furos delicados transpassando pele, gordura e órgãos. Pinga menos sangue do que Passos poderia esperar. A porta dos fundos se abre. Um gordo trôpego dispara pela viela. Simeão gosta. Sente o cheiro da noite. O sabor do medo no ar. “Vamos dar a ele uns segundos de vantagem. Se não perde a graça…”

Pedro Sasse

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Caixas de sobra – Ep. 32

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A mata se adensa. Não é a primeira vez. As folhas cortantes dão lugar a um ajuntamento de copas baixas e retorcidas. Não ouve mais o barulho de motor. As pernas bambeiam. Há desníveis do solo coberto por folhas secas e frutas podres. Os insetos revoam. Relutam. Invadem o nariz, os olhos, os ouvidos. A estradinha de terra batida está longe. Não há sinal da trilha em meio aos troncos estrangulados por cipós. Em suas costas, o peso de Angélica é o mesmo de todos os pecados do mundo. Enquanto as vozes formigam e ficam para trás, Santos Passos ouve um resmungo de bolhas. Seus pés tropeçam. O som de línguas d’água lambendo as pedras se intensifica.

– Rio – sussurra Angélica com voz de vapor em seu ouvido. O hálito está frio.

Atiraram uma vez. As lanternas iluminaram o nada. Onze pontinhos fragmentados na distância. Nenhum ruído. Até feras temem o furor desprendido no cheiro daqueles que vem atrás. Alguém liga uma caixa de som. Não dá para saber qual música, mas é Elvis. Com certeza é Elvis. Simeão gosta de ouvir no máximo. Na última vez foi Love me tender. Pôs Elvis alto no rádio e afundou o crânio de um amigo com uma garrafa de whisky. Mas desta, provavelmente, é My way, Santos tem certeza.

Outro disparo, oco.

Tenta por um segundo ouvir a respiração enfraquecida. Não ouve nem sente nada, mas não interrompe a marcha. As costas estão empapadas de sangue. Escorrendo pelas nádegas e fazendo as coxas colarem na calça. Se ainda escorre é porque está viva, pensa.

O chamado das águas se intensifica. Pronunciam a primeira letra do seu nome. Ele sibila como uma cobra dormente. Santos atinge uma ladeira que antecede a margem do rio. Santos desce a ladeira coberta por raízes e sente a lama grudar nas canelas. Segue o contra fluxo das águas ignorando os galhos de plantas subaquáticas que perfuram as panturrilhas. Não olha para trás. Ignora a ausência de ruídos e o sangue frio de Angélica. Poderia descobrir que está morta. A margem se torna completamente íngreme. Não há outro caminho além da água. Não há como ignorar o seu chamado. Seguir pela água até a cintura. Enfrentar a correnteza até sabe lá São Cristóvão lhe permitiria. Não será a primeira vez.

Jonatas T. Barbosa

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Caixas de sobra – Ep. 31

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Por PublicDomainPictures. (Disponível em: https://pixabay.com/en/headlight-round-on-shining-glowing-2288/)

Por PublicDomainPictures. (Disponível em: https://pixabay.com/en/headlight-round-on-shining-glowing-2288/)

conheça teus inimigos, apareça nos pontos onde o inimigo terá que se apressar para se defender e marche rapidamente para lugares inesperados, cala boca cala boca cala boca cala boca.

‘não estou falando nada’

‘está sim, cala a boca’

as motocicletas correm na direção do carro, eu e Angélica temos que nos rastejar pra nos afastarmos deles e embrenhar na mata, os faróis vão iluminar cada vez menos, eu sei, e as pedras, a terra e a areia vão rasgar os joelhos, Angélica sente dor, o sangue escorre da ferida no abdômen enquanto ela rasteja, deixando um rastro que só será encontrado no dia seguinte, quando o sol estiver queimando esta estrada, eu preciso me levantar e ajudar Angélica a se levantar, ela respira fundo e aperta o ferimento, seu gemido é tão rouco quanto o motor das motocicletas, ela não vai aguentar, ela sangra muito, a bala deve estar se movendo por dentro dela, cortando a carne, ela está ficando fraca, sinto isso enquanto ela vai se erguendo, apoiada em mim, não vai conseguir, não vou dizer isso a ela mas quando fala o som da sua voz é desencanto.

‘consegue andar?’

‘me segura assim, por aqui’

‘assim?’

‘por baixo do meu braço’

‘apóia o seu no meu ombro então’

‘vai devagar, está doendo muito’

‘assim é melhor?’

‘isso, agora me levanta’

‘aguenta firme, a gente precisa continuar andando’

‘tem muito sangue’

‘você consegue’

‘e se eu não conseguir?`

Angélica me olha como se eu fosse capaz de decidir sobre vida e morte, ouço vozes agora, parecem vir de estrada, parece que eles estão por todos os lados, parece uma legião, a mata alta vai se fechando cada vez mais, o capim corta a pele como se estivéssemos atravessando uma plantação de lâminas afiadas, ouço um tiro, nem sei de onde vem, o peso de Angélica sobre o meu ombro é quase insuportável, ela não vai aguentar mas não posso dizer isso a ela.

Luciano Cabral

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Caixas de sobra – Ep. 30

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Suor escorrendo no buço

A cabana mais escura, a madeira iluminada pela lâmpada incandescente meio morta

Os três, de pé, a porta se abre

Ele está nervoso, ele está com medo

            Do lado de fora, cheiro de mato. Sons de grilos e cigarras.

            Sua mão encontra a de Angélica e a aperta com força.

um disparo ecoa mais perto

mais um, mais um

Eles estão vindo para cá.

                                   Eles correm, galhos estalam sob os pés, pulam raízes

a respiração abafada

uma estradinha de terra

                        Entra no carro, Caixa. Vambora. Vambora!

– Cadê o resto?

– Eles vão cuidar desses caras.

Vira a chave na ignição, o motor ronca, o estofamento vibra na manobra sobre o chão de brita.

Gira o botão do farol,            revela árvores e mais árvores e mais árvores e mais

– Desliga o farol.

– Quê?

– Eles estão chegando.

Baixou pra lanterna, seguiu na trilha, amortecedores rangendo

Angélica chorando baixinho

as contas do Santo Rosário se espalhando no bolso

mais um tiro. esse foi mais perto

Estrada esburacada raspa no eixo do carro

– Acelera mais.

– Cala a boca.

– Corre, cara, corre

cala boca cala boca cala boca cala boca cala boca

Som de motor passa rente à esquerda

São motos. Deus. São motos. Quantos deles?

                        Um tiro estoura na lataria.

– Que…

Outro. Uma moto passa à frente. Luzes de faróis alternam-se.

Pisa no acelerador até quatro mil giros, o carro sai da estrada e entra na mata, o farol direito estilhaça

Mais um tiro, sangue espirra dentro do carro

perde a direção e acelera sem parar

e bate

contra um tronco

o vidro

o metal

os galhos

o motor morre

Eu já vivi isso uma vez

Procura a maçaneta, abre. O motorista, baleado no maxilar, tinha a mão direita no coldre. Passos pega a arma

– Angélica, vamos sair do carro.

Ela geme.

está ferida? está? está ferida.

            Passos sai, destrava a porta, ela rasteja para fora. Ele engatilha a arma. Aproximam-se os roncos das motocicletas .

Lucas M. Carvalho

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Caixas de sobra – Ep. 24

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Já tinha se habituado às pedras, matos, mosquitos, formigas de todo tipo, percebe que sua audição não havia de todo se perdido, parece ter desenvolvido uma atenção mais sutil aos menores sons, ali é um sabiá!, agora se lembrava das rápidas aulas de Angélica sobre os cantos dos pássaros, mesmo seu olfato estava mudado, talvez aquele ambiente menos sobrecarregado de fumaça de automóveis, ou melhor, o efeito dos odores diversos numa concentração comunitária, em exposição gratuita e obrigatória, e principalmente o cheiro de Angélica, o que também faz com que seu tato se aprimore, se desmecanize, apesar das marcas do relógio ou do volante ainda estarem como uma tatuagem borrada,

ainda assim permanecem, não como uma identidade, mas como uma condenação, as caixas, por mais que tenha tentado o contrário,

ainda assim permanecem os pedidos, o dever-entregar-ao-companheiro, senão sua sobrevivência estaria arriscada, ele sabe disso, certamente, mas precisa sempre se lembrar do velho ditado deixado pelos romanos manus manum lavat, ou (desnecessário traduzir),

Avista o companheiro a quem deve entregar a caixa.

Aproxima-se. O rosto do companheiro não parece,

– Então você deve ser o sr. Caixa… entra aí…

parece que,

– Pode deixar a caixa em cima da mesa, ali ó,

Estão no cubículo que parece uma sala, a mesa apontada está no espaço à direita, onde existe um sofá desgastado,

– Pode sentar aí, sr. Caixa, eu tava terminando de preparar uma carne moída, o macarrão vai ser miojo mesmo, ou você prefere arroz?

– Por mim

– Mas agora lembrei, o arroz azedou… Mas me conta aí essa história de “caixa”, até agora não entendi o que tá nos jornais…

– Bem

– Não, não… você deve tá com fome, andou bastante, e a carne tá quase no ponto, e é melhor esperar pra contar quando o chefe vier.

Gabriel Sant’Ana

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Caixas de sobra – Ep. 23

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São 13 horas do sacro Domingo. Santos Passos está ajoelhado ao Sol. A discussão ocorre aos sussurros, eclodindo, vez ou outra, um princípio de grito rapidamente abafado pelo desejo de sigilo. A grama ressecada arranha seu joelho. Mosquitos pousam e partem de seu rosto petrificado. Dez horas antes está sentando na cadeira de vime do que aprendeu a chamar lar. Olha Angélica. “Preparado? Um, dois, três e…” afunda a cabeça na piscina da casa de Bacaxá. Tem doze anos. A prima o beija no fundo da água. O mundo inteiro está longe. A escola. O padrasto. As brincadeiras de mau gosto de Lelé. Os lábios ficam unidos em perfeita harmonia. Quer estar ali pra sempre. Mas o ar está acabando. Sabe que a qualquer momento terá que desistir daquele momento e voltar à superfície. Mas pensar nisso é gastar o prazer do beijo. Não quer pensar. Mas pensa.

São três da manhã. Angélica é um tronco de árvore no meio da floresta. Plácida. Firme. Tênue. A comunidade inteira está em silêncio. O mesmo silêncio do fundo da piscina. Tudo ali está submerso. O cheiro dela. O café. O trabalho na obra. Mas o ar está acabando. São nove da manhã quando acorda. É domingo e olha para o teto e suas constelações de buracos e rachaduras. Vê Aquarius próximo a uma nebulosa de mofo. “Eu perguntei tanto ontem da caixa não foi por mim não que eu sou fuxiqueira… mas tem um delegado lá no asfalto que é. Vem perguntando muito sobre o Homem das Caixas, como o jornal tá chamando. Ele mostrou até a notícia…”. O ar está quase no fim. Santos Passos sente seu pulmão murchando. O desespero vazando das frestas da consciência. O Sol paira no centro do céu quando partem para ver Pablo. “Ele não vai querer você aqui, com as crianças e… tudo mais. Mas ele vai ajudar porque ele ajuda quem é da comunidade. Mas tem que confiar. Você vai ter medo, mas tem que confiar”.

O gosto de cinzas na mordaça aguça peculiarmente seu paladar. Dá fome. As formigas escalam as coxas, desbravando um sertão púbico. A última bolha escapa da fusão das bocas. Seguram-se pelas mãos. Tudo é comunicado ali. Sabem que é preciso emergir. Passa um quarto de hora ajoelhado até tirarem a venda. Demora a se acostumar com a luz. “Compañero… tu sabes que no quiero tu mal, pero tampouco puedo dejar que la policia venga hasta acá…”. Santos Passos se vê num mar de estrelas verdes. Sentinelas passeiam entre a folhagem, bonés e panos no rosto, ak47 a tiracolo. “Pero me hán dicho que te gustan las cajas, no? Pues vás a dar um paseo por el bosque hasta que la policia se parta y aprovechas para llevarme una caja a un compañero, si, sr. Caja?”. Angélica repousa a mão em seu ombro. 14 horas está em pé. Uma mochila militar está presa às suas costas, a caixa, em sua mão. Algumas lavadeiras rasgam o ar em voo rasante. “Angélica, coge el camino de siempre y te quedas em el abrigo hasta llegaren los compañeros. Volveis em unos dias com el mio que las cosas deben estar mas calmas, por acá…”.

Santos Passos entra na sombra úmida da floresta. Angélica, predadora, caminha adiante de olhos atentos. Anos antes, ele a prima se olham por última vez através da ilusão ondulante das águas. E mergulham novamente na realidade.

Pedro Sasse

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