“outra vez bolo de nozes”, por Gabriel Sant’Ana

insistentemente bate com o martelinho a noz para fazer o esperado bolo de nozes deste natal com nosso punho fortemente mãos seguras firmemente estraçalhando em miúdos pedaços as nozes repete as batidas em agressividade crescente constantemente daqui algumas horas virão nossa sogra nossos sobrinhos com seus sorrisinhos felizes de uma felicidade oca e transparente seus presentes empacotados tão belos quebrando minha expectativa porque não irei ganhar aquela roupa que vi na loja quando estava em madureira hoje mais cedo porque não fica bem para tac tac rude esfrangalhar nossos dedos mais vermelhos palmas das mãos avermelhando no martelo alguns pedaços vão para longe no chão do lado de fora da casa tô com fome mãe vem logo o que tem pro almoço ô garoto se vira anda logo pega um biscoito aí dentro do armário parece estar se rachando mais forte com força viril animal estranhamente humana húmus em terra em noz misturando carne pele sangue arenitos nozes para o bolo tradicional da noite natalina no ambiente familiar agradável quero mesmo triturar quero muito mesmo porque mas naquela loja a roupa não estava na promoção vi a mesma roupa em outra loja mais barato que absurdo já veio a fatura do mês merda de brinquedinhos que tive que comprar pra essas crianças que não fazem nada o ano todo aumenta o suor seu rosto pingando indo para a boca entreaberta não sentimos sede apesar do sol das onze horas da manhã de dezembro plena sexta quando deveria estar à beira da praia tomando minha cervejinha me jogando no mar pedindo as bênçãos tirando todo fardo de mim com a água salgada mas não isso não posso porque o bolo deve estar pronto para quando chegarem porque se não estiver irão perguntar cadê o seu delicioso bolo de nozes ficarão espantados quando mandar todos à merda se foda esse bolo de merda de areia misturada sangue dos meus dedos nossos triturando mais nozes quase todo o saco que comprou ontem no mercadinho da esquina animal suando olhos inflamados o garoto não voltou a perguntar pelo almoço se dane a hora do almoço batendo no chão com o martelinho movimento máximo da mais pura manifestação martela agora as paredes da varanda ficaria melhor assim repete mais vezes o filho ouve o barulho corre para ver ela corre atrás dele se tranca no banheiro não mãe não faz isso por favor cala a boca merda quebra os vidros da sala tritura os restos de nozes que tinham se espalhado pelo bater desenfreado não queremos mais parar as marteladinhas não mais desejamos deixar unidas as coisas mas separar destruir os pratinhos que os familiares irão trazer esta noite serão deliciosos titia o frango assado meu avô o velho vinho tinto tudo perfeitinho e lá vai mais uma noz parar longe havia errado a mira sentimos o estômago doer a cabeça um tanto corre até a cozinha para pegarmos a vassoura juntaremos todos os cacos e nozes e sangue e pele e areia e concreto depois do almoço e do cochilo irá preparar como há mais de vinte e cinco anos

Caixas de Sobra, uma introdução

Matryoshka, por Deborah. (Disponível em: http://xdeborahx.deviantart.com/art/Matryoshka-96310610)

“O mundo não seria o que é agora se eu tivesse rejeitado Pandora. Mas eu era pequeno. Há momentos em que uma data específica, as palmas, as músicas, os doces, os convidados e a inocência nos levam a abrir caixas. Naquele dia, não sei de quem ganhei o presente, não me recordo de todos que estavam lá. Quando eu menciono o episódio, não há quem se lembre. Inventar não é do meu feitio, mas comecei a duvidar desta lembrança. Parece que eu sou o único que consegue recapitular que havia um presente embrulhado, que chama minha atenção porque é uma caixa grande. Um papel brilhante que me atrai como mosca na luz. Eu voo até ela com toda a selvageria que eu posso juntar e que me faz reduzir o embrulho a pedaços. Avisto uma caixa de papelão por baixo daquilo tudo, rasgo o lacre que me atrapalha e Pandora não para de sussurrar no meu ouvido. A voz dela é tão encantadora e ordena que eu abra a caixa.

Mas o que eu encontro é outra caixa dentro da caixa. Pandora não desanima. Pressiona os lábios na minha orelha, mergulha a língua no meu ouvido e exige que eu continue. Rasgo mais um lacre e me deparo com outra caixa. A língua de Pandora ainda está no meu ouvido, mas vai perdendo o encanto. A terceira caixa já é do tamanho de uma criança do meu tamanho e tenho medo de abri-la e me dar conta de que eu estou indo em direção ao nada.

Isso faz tempo. Mas está tão vivo pra mim quanto estas caixas que me rodeiam agora. Quando penso nisso, o que vem logo depois é decepção. Construí um mundo feito de papelão, um mundo quadrado e sem conteúdo. Me espanta que apenas eu lembre desta história. Tanto que me pergunto se Pandora algum dia existiu.”

Caixas de Sobra é uma história sobre o meio. Escrita por cinco autores, mantém como princípio a liberdade criativa para que cada episódio seja não só uma surpresa para o leitor, mas também para o autor que lhe dará a sequência. Sem a possibilidade de um fim planejado, de um enredo harmônico, Caixas de Sobra acaba por imitar a vida: começa e termina em um ponto arbitrário de uma linha demasiado longa para deixar ver seu início ou fim.

Acompanhe conosco essa road trip que mostrará a jornada de um vendedor e seu interminável, indesejado e inseparável estoque de mercadorias contra a desesperadora falta de sentido da vida contemporânea. Veja como o protagonista tentará encontrar sentido nos lugares e fatos mais insólitos da vida.

Siga conosco Caixas de Sobra, todas as quartas-feiras, 20h, no Poligrafia.