“O mal da obviedade”, por Pedro Sasse

“Sabe, meu pai costumava dizer que o gosto pelo amargo é o que nos faz verdadeiramente diferente dos animais. Ele trabalhava em uma fazenda e passava o dia entre gado e galinha. Achava, lá pelos tantos da idade, que os animais tinham tudo para serem ótimos humanos: comiam, transavam, sabiam obedecer, gostavam de carinho e gritavam na hora da morte. ‘Mas nunca você vai ver um porco desses preferir um bom copo de doze anos em vez de um punhado de açúcar refinado, moleque’. Falava arrastando o bicho pros fundos da casa. O amargor, eu acho, faz parte do nosso instinto de autodestruição, de masoquismo, de aprender a negar o que o corpo realmente quer, Jessica”.

Os últimos casos não foram muito agradáveis pra você, eu imagino. Esse do vizinho que assassinou aquela família ainda ecoa na minha memória… Sabe que o criminoso ainda está foragido? Raramente são pegos, na verdade. Todo santo dia tem um homicídio novo na cidade. Todo santo dia um novo assassino não é capturado. Estão todos aí fora.  Se aglomerando… Uma bola de neve vermelha de sangue esperando para passar por cima de nós. Por isso eu só consigo dormir a base de muito remédio hoje em dia. Quem é que dorme tranquilo sabendo que há dezenas, centenas de monstros lá fora? Bom, não vou mais tomar seu tempo, você é alguém ocupado. Esse é o último caso, se serve de consolo. Mas fique atento, não é um caso fácil, não é trabalho de amador. Se descobrir algo me avise…

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Seção autoral de Pedro Sasse

Caixas de sobra – Ep. 13

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“Filhos da puta”. Santos Passos caminha de um lado para o outro na recepção apertada. A cada três passos uma volta. O recepcionista tremulava atrás do balcão na busca pelo livro de hóspedes.

– Deve estar aqui em algum lugar… meu primo vive usando pra anotar recados, sabe?

Tudo vinha à cabeça de Santos Passos como uma descarga de merda. O velho da recepção, a foto, a história do setor administrativo, o sumiço das caixas. Depois de todos aqueles anos, da saída às pressas de São Paulo, da vida sem celular, sem emprego fixo, sem casamento no papel, o menino registrado somente no nome da mãe, depois de tudo, o haviam achado.

– Aqui! – o garoto puxa um caderno “10 matérias”, papel amarelado, capa com jovens brancos saltando de paraquedas – Não sei como isso pode ajudar a resolver o que houve com o seu carro… você acha que tem alguém conhecido seu aqui?

A lista era amadora. Anotações em garranchos, nomes sem sobrenome, nenhum documento anotado. Folheou com rapidez, buscando o dia anterior. A maior parte dos registros indicava putas: nomes genéricos dando entrada pela noite para sair de manhã cedo. Alguns tinham cara de road trip: cinco entradas seguidas, todas de nomes que ninguém usava há vinte anos atrás, tipo Theo e Enzo. “Filhos da puta”. Santos Passos para em um ponto da lista. Três entradas seguidas: Rubem, Simeão e Judá. “Três dos outros onze…”.

– O vigia do turno anterior está aqui há quanto tempo?

– Eu e meu primo fomos contratados juntos, há mais ou menos seis meses.

Santos Passos coça o pulso com força. Checa novamente o carro do outro lado da rua.

– Não! Um velho… 60, 70 anos, sei lá, de óculos… – a expressão do recepcionista pendula entre confusão e medo.

– Vai desculpar, mas não trabalha ninguém assim aqui não. Só sou eu, meu primo, o cozinheiro e a dona.

“Filhos da puta”. Santos Passos agarra o braço do garoto e dispara em direção ao segundo andar. A idade cobra seu preço. As pernas fraquejam entre os degraus. “Eles queriam que eu visse isso. Como me acharam? Quando? Que merda foi aquela no carro?” Por um momento tudo escurece. “O senhor está bem?”. Não responde. Não para. Arrasta-se até seu quarto.

Vinte anos antes, Santos Passos usa um terno demasiado curto e já desbotado. Está em um escritório alugado na Rua Augusta. Os outros onze conversam entre si animadamente. Santos Passos está tenso. Checa as centenas de caixas que ocupam quase a totalidade do espaço. Peso. Tamanho. Tenta sacudi-las. Nada. “O que tem dentro delas?”. Judá ri. Os outros dez o acompanham.

Vinte anos mais tarde Santos Passos está sentado na cama do hotel. Os lençóis, outrora branco-cloro, estavam coloridos dos tons entre o vermelho sangue e o marrom coágulo. As caixas, espalhadas sobre a cama, abertas, expunham um mosaico feito com as partes do corpo do que provavelmente era o primo do recepcionista. Ou talvez o cozinheiro. O garoto está de boca aberta. Parece gritar. Ninguém ouve. Nem mesmo Santos Passos. “Deixaram uma caixa fechada”. Põe-na debaixo do braço. Autômato, cruza corredor, escadas, recepção, estacionamento. “Eles me acharam”. Liga o carro. Coloca a caixa do banco do carona. “Filhos da puta”.

Pedro Sasse

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Caixas de sobra – Ep. 08

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– O que é que tem nesse monte de caixa, aí, amigo?

O mecânico rodeia o carro, deslizando os dedos pela lataria avariada. Santos Passos responde no automático, sequer ouve sua própria voz. Sente a ausência do relógio no pulso, a sensação fantasmal da pulseira de plástico, o alarme ecoante na memória.

– Pra fazer a lataria e tudo mais, é trabalho pra mais de uma semana, amigão…

Algo mudou na estrada. O mundo foi substituído por um teatro caricato de si mesmo. O mecânico anda de um lado a outro tagarelando com uma boca de marionete, balançando toscamente seus braços e pernas de madeira. O céu, mais opaco que nunca, fundo tocável por trás das árvores intrigantemente uniformes de background genérico. Lembra de De volta para o futuro. Para viajar no tempo, era necessário acelerar a uma grande velocidade. Quando todo o público pensava que o acidente era iminente, Martin cruzava as teias de realidade em direção ao passado ou ao futuro.

– Agora se é só pra seguir caminho vai precisar dar um jeito no carburador, trocar uma das rodas da frente e verificar o óleo, até amanhã a gente resolve.

Algo mudou na estrada. O carro já está parado, mas Santos Passos continua acelerado. Seu coração roda a 200 km/h. Está na lanchonete do posto. Pela janela, o mecânico-marionete se enfia pelas entranhas do velho automóvel. O rádio canta Blowing in the wind entre chiados, enquanto o café desce quente por sua garganta. Uma mosca, único ser de fato vivo ali, cruza impune entre um caminhoneiro à beira da morte e seu flerte para a garçonete há pouco na vida.

– O senhor vai querer ketchup?

Santos Passos pergunta sobre o hotel mais próximo. “Lótus vermelha”. Três quilômetros à frente. Ao partir caminhando pela estrada, sente, mesmo sem olhar, que mecânico, caminhoneiro e garçonete se reúnem no pátio do posto para se despedir, como num fim de peça. O vento trafega pela via expressa e as caixas vão ficando pra trás. Pelo menos até a próxima manhã.

– Alô?

Sem o Cássio, o tempo, pouco a pouco, se desprende da mente, vai se tornando hábito pitoresco. Está deitado em uma cama redonda e vermelha, olhando para o mundo através do espelho do teto e o Santos Passos em tudo inverso que lá mora. Na TV, cientistas aventam a possibilidade da existência de aliens e há biscoito recheado no frigobar. A voz no outro lado do anacrônico fio é de quem acabou de acordar. Santos Passos dá bom dia.

– Pai?

É difícil explicar o que ele mesmo não entende. Precisar o momento exato de sua decisão ou seus motivos. Criar um discurso que não pareça tão ridiculamente teatral, artificioso. A própria voz do garoto, filtrada pelo fone de um milênio passado, soa a novela dos anos 80. É difícil não parecer mais um caso de abandono, uma fuga covarde ou qualquer outro clichê. Mas algo mudou na estrada. Pouco antes do acidente, o ponteiro do velocímetro tremendo, o vento sendo rasgado pelo metal. Santos Passos gritou pela primeira vez na vida. Não um grito instintivo, de medo. Mas um grito voluntário, despropositado, a simples afirmação de por primeira vez sentir o gosto da ausência de destino, de dever, de rotina. Santos Passos sentiu-se eclodir de uma caixa na qual havia entrado há muito tempo atrás. E o mundo fora dela era inteiramente novo e diferente.

– Avisa pra sua mãe que eu vou demorar a voltar…

Pedro Sasse

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