Escrever como um Animal

o chamado selvagem jack london poligrafia

O título do post é certamente uma brincadeira. Mas vale a pena perceber que não é nada fácil escrever uma história na perspectiva de um animal. E não estou falando de fábulas, como as de Esopo, por exemplo. Nestas, o animal possui características humanas: fala, pensa, dá conselhos, retruca, planeja, faz intrigas. E também não estou falando de romances como A Revolução dos Bichos, de George Orwell, em que animais de uma fazenda rebelam-se e tomam o controle do lugar. Aqui, há também animais comportando-se como humanos – incluindo o “andar sobre duas patas”, lá pelo fim da narrativa.

O que vale perceber é o quão interessante – e desafiador – é construir uma história na perspectiva do animal. E isso cabe dizer emular comportamentos, escolhas, reações e desejos que um animal pode ter.

O romance O Chamado Selvagem (na minha opinião, é a melhor tradução para o título original “The Call of the Wild“), de Jack London, é um ótimo exemplo de como uma história pode ser contada nessa perspectiva. Neste caso, um cão.

A narrativa está, do início ao fim, em terceira pessoa. Isso faz com que não se precise fazer o animal falar (como nas fábulas), o que permite que o romance não perca ser caráter verossímil. Buck, o protagonista, é um pastor alemão que, após ser roubado de uma família californiana, é levado para o Alaska. Agora em território inóspito e hostil, ele precisa se adaptar às novas condições – até que, enfim, começa a ouvir o “chamado selvagem” e seu comportamento muda radicalmente.

Era inevitável que a luta pela liderança ocorresse mais cedo ou mais tarde. Buck a desejava. Queria lutar pela chefia, porque esta era a sua natureza, porque ele tinha sido capturado firmemente por aquele orgulho sem nome e incompreensível da trilha e dos tirantes – aquele orgulho que prende os cães no trabalho até o último fôlego, que os leva a morrer alegremente em seus arreios e que lhes parte os corações se forem cortados deles“.

O romance é repleto de cenas violentas, sejam elas entre os humanos, entre os cães, ou o embate entre ambos. Buck aprende a sobreviver à “lei do porrete” e depois impõe “a lei das presas” dos seus dentes caninos. Não há um só momento em que a narrativa se afaste da perspectiva do cão. Atado a ela, nós acompanhamos suas frustrações, seus embates, seus sonhos e seus desejos. Há certos momentos em que o comportamento de Buck parece assemelhar-se ao comportamento humano – como no trecho acima. Entretanto, a rusga entre ele e o cão Spitz lembra-nos que desejo de liderança não é exclusividade de nós humanos.

Como disse, O Chamado Selvagem  é um ótimo exemplo de uma narrativa estritamente ligada a um cão. E aqui fico me perguntando como seria algo assim na perspectiva de um outro animal, como uma tartaruga, uma águia, um elefante, um verme…

“Tentação”, por Luciano Cabral

“do lugar de onde eu tinha vindo, a temperatura não era como ali, nem a paisagem era tão bonita, por isso, eu me perdi em pensamentos, sentindo o vento, vendo aquilo tudo, era tão calmo e tão pacífico que eu peguei no sono ali mesmo, na grama”

Existe um conto japonês chamado “Dentro de um bosque”. Nele, um assassinato ocorre no bosque. Temos acesso apenas aos depoimentos. Todos contraditórios. Nenha prova, nenhum rastro, apenas vozes discordantes tensionando a realidade. Quando a verdade é completamente inacessível, o que resta? Muitas verdades ou nenhuma delas? Ou apenas escolhemos a narrativa mais confortável? Quem sabe deixamos que escolham uma delas para nós… “Tentação”, em poucas palavras, nos convida a refletir mesmo diante dos sólidos discursos da tradição ocidental…

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