Caixas de sobra – Ep. 22

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Passos despertou. Estava tudo submerso em silêncio. A TV sintonizada em um canal fora do ar, muda. O suor do seu corpo atraía os insetos. Era a única coisa com que não conseguia se acostumar. As moscas de lanchonete não passavam de borboletas comparadas àqueles parasitas. Dedicara-se a tapar cada fissura da casa, porém, sempre arrumavam uma maneira de entrar. Angélica dizia que antigamente era pior, que antes de inventarem os inseticidas industriais para plantações, nos tempos de garimpo de ouro, os mosquitos costumavam ter o tamanho de uma gralha, e existiam barbeiros do tamanho de onça. Sim, claro. É claro que existiam, ele concordava escondendo a boca atrás do copo de café.

As noites eram bastante desagradáveis, todavia, aquela madrugada estava ainda mais insuportável. Levantou-se para pegar a caixa de ovos vazia e os fósforos dentro da gaveta. Acendeu um. Deixou a chama queimar o palito até se apagar.

Ao longo de todas as noites, especialmente em noites quentes, o zunido aumentava. Mas naquela não. Passos, concentrando-se um pouco, poderia sentir o silêncio roçando a pele. Não. Isso era coisa de sua cabeça. Não havia motivos para se assustar. Pôs a caixa de ovos e os fósforos no colchão. Tentou bisbilhotar o quintal pelas cortinas. Matias dizia que, às vezes, bem no meio da noite, um ou outro garimpeiro morto caminhava pela região. Definitivamente Passos não era sujeito supersticioso. Achava graça. Mas observando aquele breu profundo como a garganta de um gigante, podia entender os medos daquela gente. As lâmpadas da varanda mal davam conta da fachada. Não conseguia ver nem sequer a bica com que enchia o balde para tomar banho.

Afastou a cortina para ter certeza. Tinha certeza. Não vira nada. Estava tudo em silêncio. Nenhuma brisa. Nenhum som de rã ou inseto. A dormência da perna se afastara e dera-se conta que o cheiro do corpo não era tão desagradável. Deixaria o banho para quando o sol nascesse e estivesse claro.

Jonatas T. Barbosa

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Caixas de Sobra – ep. 21

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red couch poligrafia

Disponível em: https://pixabay.com/en/red-couch-weathered-couch-sofa-66819/

nem mesmo Sun Tzu conseguiu resistir dentro do meu bolso, se a guerra é uma arte, eu devia ter orgulho do artista em que me tornei, eu pensava na pergunta de Angélica e na resposta que escaparia da minha boca se não tivesse sido aniquilada pelo meu sorriso, não há orgulho algum nisso, acho que Angélica esqueceu a pergunta que fez, parecia mais atenta às unhas do que à conversa, a televisão falava e falava, como se estivesse realmente procurando interação, olhei pra Angélica ali ao meu lado cutucando os dedos, vez ou outra levantando a cabeça pra olhar pra tela e eu conseguia enxergar mais coisas dentro daqueles olhos do que no horizonte de uma estrada em linha reta, de repente, ela já estava de frente pra mim, cara a cara, acho que ainda procurava a resposta que eu não dei, corria a ponta do dedo pelas rugas dos meus lábios, as unhas pintadas com o mesmo tom daquele sangue misturado aos estilhaços de vidro e fios de cabelo do carro, ela veio pra cima de mim como um bicho selvagem, subiu no meu colo e meu peito começava a dar sinais de entrega, suas mãos amassavam meus ombros e eles cediam tão fácil quanto pedregulhos jogados sobre papelão, pensei em empurrá-la pra longe mas não havia nada que eu pudesse fazer naquele momento, ela já desabotoava a blusa e exibia o contorno rosado dos seios, acho que ela estava esperando que eu fizesse alguma coisa, eu pensei em fazer alguma coisa mas achei melhor que ela fizesse, seu corpo pesava sobre o meu quadril e sua pele reluzia a propaganda da TV, ela agarrou minhas orelhas e puxou meu rosto até a sua barriga e eu não tive escolha senão deixá-la meter meu nariz no seu umbigo, o cheiro que eu senti era o mesmo do meu terno desbotado, lavado, usado na primeira vez que eu encontrei os onze, ela afastou meu rosto, desmontou do meu colo e ficou de pé, seus seios pareciam mais pesados do que antes, eu continuava deitado no sofá, sem saber como reagir, ela deu alguns passos pra trás e olhava pra baixo, desabotoou a bermuda e descia o zíper devagar, como se tivesse todo o tempo do mundo, o brilho da TV trovejava sobre aquele corpo seminu que mais parecia ilusão, ela ainda deu mais alguns passos pra trás quando o zíper atingiu a parte mais baixa da bermuda, ela parou, acariciou os pelos que apareceram e perguntou.

“o que tu vendia?”

Angélica cutucava os dedos, a televisão falava e falava, olhei pra ela e sua blusa  tinha todos os botões abotoados, eu continuava sorrindo, tentando aniquilar a resposta mas percebi que dessa vez isso não seria suficiente.

Luciano Cabral

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Caixas de sobra – Ep. 20

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– Não é assim que se vira a massa, seu Passos.

A cada vez que Matias me chama pelo nome, me amaldiçoo. Por que não fui inventar uma desgraça de nome falso? Coisas agora tão óbvias, mas que antes não passaram pela minha cabeça. Coisas que me fazem entender os grandes erros da humanidade. Guerras. Holocausto. Viver não é simples, não são decisões tomadas na frente de uma máquina de escrever.

– Vai deixar secar a massa, seu Passos!

Ele gritou. Eu imagino se alguém neste estado não ouviu. Meus olhos giram ao redor em pavor, acusando culpa, mas uma culpa que ninguém percebe, pois, aqui, todos são igualmente culpados.

– Matias, eu não sirvo pra servente.

– Pelo menos você não falta. Os moleques da Rafaela cagam tudo e ainda nem aparecem na hora do serviço.

Vinte e cinto reais no fim do dia. Volto para a casa da Angélica, suado, as roupas são fiapos de indigente. Cumprimento o Marlon, ou talvez o Diogo, nunca lembro quem é quem. O menorzinho é Levi. Nunca consigo olhar nos olhos dele. Angélica pede pra eu descer e comprar um macarrão porque a água já está fervendo. É um fim agradável de tarde, ao longo de muitas tardes agradáveis, como jamais pensei ser possível.

– Faz mágica, tio?

Ponho uma pedrinha na junta do cotovelo do menino e a faço aparecer no outro braço.

– Me ensina?

– Só se você for na venda pra mim, que eu tô cansado. Traz um macarrão.

Deito no canto que me foi preparado. Angélica assiste TV e faz as unhas dos pés.

– Me diz uma coisa, Passos. O que que tu fazia de trabalho?

– Eu? Era vendedor.

– E o que tu vendia?

Abro boca despretensiosamente:

– Era um…

No bolso, um papel manchado. Parece ser o que sobrou do velho “A Arte da Guerra”. Angélica olha para mim e espera a resposta. Eu apenas sorrio.

Lucas M. Carvalho

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Caixas de sobra – Ep. 17

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A meia lua assomava no centro do céu. Brilhava escondida entre nuvens roxas. O jeito com que sorria causava certo desconforto a Santos Passos. Não se importava se amanhecia ou anoitecia. Mas não suportava aquela sensação. De ser perseguido. Observado. Ele não contava os dias desde a fuga do hotel. Entendia-se mais avesso aos olhares curiosos, e, na mesma medida, estava mais íntimo da estrada. Era sua melhor amiga. As costas doíam menos por dormir. Depois que tudo terminasse, pensava, poderia compor seu próprio Testamento em sua homenagem. “A fuga pela terra esquecida”, ou “O retorno ao paraíso perdido”. Entretanto, os olhares fustigavam como agulhas. Irritava. A sombra dos Onze ainda estava grudada na sola do seu sapato. Em cada esquina que virava, por cada carro que passava, sentia unhas raspando, subindo o calcanhar. No final da tarde, meteu-se no banheiro de um bar e abriu a sola por dentro do sapato. Não estava louco, afirmava. Mas tinha que ver. Ver se não enfiaram um daqueles rastreadores modernos. Arrebentou o couro em vão. Agora o calçado engolia as pedras no caminho, obrigando-o a parar constantemente para tirá-las do espaço entre os dedos. Mais olhares. Não conseguiria caminhar mais de um quilômetro.Precisava de um lugar seguro pra dormir. Às vezes tinha a impressão de ouvir um barulho gorgolejante de pigarro perseguindo-o. Igual ao que Ismael fazia para provocar. Ismael batia na porta. Dava para sentir o cheiro de cigarro entrando pela fresta. Santos Passos oferecia a mão, mas ele não cumprimentava. Sacava o certificado de recebimento. Santos assinava. Depois destacava o canhoto com o endereço para carregar o carro com a remessa de caixas. Mas isso fora há muito tempo. Há meses atrás. Não devia ter se metido com eles, resmungava tirando uma pedra do sapato. Os olhos pesavam e o corpo estava ficando dormente. Ainda tinha chance de chegar a algum lugar e roubar um pouco de comida. Adentrou uma área pouco movimentada.. Talvez um aglomerado de sítios, um ou outro casebre colonial protegido por muros baixos, alguns mais precários, ruínas de madeira e tijolos cercadas por arame farpado. Nada mais. Os pigarros ainda o perseguiam. Não haveria tempo. Escolheu a terceira residência. Uma casa grande, de fachada antiga, daquelas ornamentadas por santos em azulejo. Havia dois picapes, uma motocicleta e uma caminhonete próximos à porteira. Perfeito. Percorreu alguns metros pelo caminho de pedras que adentrava um bosque. Parou atrás de uma touceira densa que crescia num ajuntamento de salgueiros podres. Sentou-se num tronco morto sob as copas, e começou a contar os insetos que matava para se distrair. Esperaria ficar bem tarde. Não precisava olhar para o céu. Não queria encará-la nos olhos e ter que ver seu sorriso.

Jonatas T. Barbosa

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Caixas de sobra – Ep. 15

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Por PublicDomainPictures. (Disponível em: https://pixabay.com/en/telephone-phone-call-old-black-164250/)

Por PublicDomainPictures. (Disponível em: https://pixabay.com/en/telephone-phone-call-old-black-164250/)

– (22:12) O número chamado não está disponível no momento.

– (22:14) O número chamado não está disponível no momento.

– (22:17) O número chamado não está disponível no momento.

– (22:19) O número chamado não está disponível no momento.

– (22:21) O número chamado não está disponível no momento.

– (22:23) Alô? Alô? É o Santos Passos. Por favor, não desliga. Por favor. Sou eu mesmo.  Eu… (pausa de quatro segundos) Cara, está acontecendo. Desculpa ligar, eu não queria ligar, eu sei que… Tá bom, eu tô calmo. (respiração ofegante) Eu estive por ali o tempo todo. Tentando vender aquilo. Anos e anos. Eu gastava um talento descomunal para esses joguinhos de convencimento. Ah, se eu tivesse usado essa inteligência para outra coisa, eu tava rico. Tipo o Silvio Santos, dono de metade do Brasil. Mas a gente escolheu aquilo. Eu fiquei quieto, fazendo o meu trabalho. É estranho porque parece que justamente quando abri mão de tudo, quando desisti de vender e resolvi fugir, eles vieram. Alô? Tá me ouvindo? Droga de telefone. O que eles têm na cabeça? Como? Não, não, eu estou bem. Não fizeram nada comigo, foi só o carro e… (respiração entrecortada) Você não imagina, cara… Não imagina o que eles fizeram naquele quarto de hotel… Sim. Sim, eu sabia do que eles eram capazes, e você também. Eu não tava duvidando. (pausa de 4 segundos) Tá, cara… tô calmo. Eu tô aqui numa cidadezinha, um buraco… na verdade acho melhor nem te dizer o nome. (pausa de seis segundos, baixa o tom de voz) Eu tô ficando louco. Cada vez que alguém passa na rua meu coração aperta… Não, não vou te dizer o nome da cidade! Esse telefone é duma padaria, eu entrei aqui e não tenho carteira pra pagar a conta, não tenho documento, deixei tudo lá… Cara… Não, não, eu vou me virar. Voltar pro hotel, sem chance. Não, eu nem tenho cartão do banco comigo. (resmungo abafado) Eu preciso da sua ajuda. Se eles souberem que você tá falando comigo… me desculpa… (tom ainda mais baixo, quase inaudível) Você acha que eles sabem da minha família? (silêncio de dois segundos) Se encontra comigo, cara. Não, não fala. Já disse que não confio nesse lugar. Minas Gerais? Esquece. Eu vou te ligar de novo de um número mais seguro. (respiração ofegante) Vou ter que dar um jeito de sair daqui. A gorda maldita tá me encarando de longe sem parar. Não, não dá pra ela ouvir. Eles estão querendo fechar. Eu vou correr pro carro e que se dane. A polícia deve tá vindo de qualquer jeito. Caramba… eu nem sei como vou fazer pra abastecer. Se a polícia rodoviária me parar? Eu não posso me preocupar com tudo. (chiado) O quê? Alô? Alô? Fala de novo. É, eu tô com uma caixa comigo. Está fechada. Cara, se eles te mandarem alguma coisa pelo correio, larga tudo e foge. Leva esse celular, é o único número seu que posso entrar em contato. Como isso foi terminar assim? Céus… Você sabe de mais alguém? Nunca mais teve notícias de nenhum deles? (pausa de oito segundos) Eu sei, cara, me desculpa por ligar, não queria envolver você nisso. (pausa de três segundos) Deixa comigo. Deixa comigo. Eu sei o que fazer.  A atendente tá olhando pra mim, e o gerente tá com ela. Cara, acho que eles estão ligando pra polícia. Eu entro em contato logo. (pausa de cinco segundos, vozes indistintas no fundo, e o telefone é desligado violentamente).

Lucas M. Carvalho

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Caixas de sobra – Ep. 14

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Para onde iria não é uma questão de trajeto pontual, antecipadamente programado, esta situação obriga uma fuga, pelo retrovisor ainda vê a merda do hotel, ainda vê aquele idiota do recepcionista gesticular alguma coisa, não voltaria, tentaria escapar, talvez não fosse inteligente o bastante para denunciá-lo, que o denunciasse então, tudo em si já era denúncia, esta caixa ao lado, este carro que emite sons inefáveis, gravíssimo erro de confiar naquele mecânico, o acelerador não o faz ir além, que sorte a existência de civilização poucos metros adiante, cidade do interior, larga o carro próximo a uma padaria, é obrigado a não deixar a caixa no banco do carona, bom dia senhor, uma jovem de cerca de dezenove anos, bonita, lábios avermelhados, sorriso encantador, me dá uma média, vocês têm queijo prato aí, sim senhor, MÉDIA COM QUEIJO PRATO, senta numa cadeira velha de madeira, uma mosca grudada na mesa sugando farelos de pão, ei por favor tem como limpar isso aqui, uma senhora obesa sai da cozinha armada de um pano de prato imundo e um borrifador, jatos sobre o espaço, algumas gotículas vão sobre a mão que segura a caixa, o pano desliza, a mosca pousa no ombro da mão que segura a caixa, vocês não têm nenhum inseticida não, a obesa não responde, um grunhido junto com um olhar questionador para o objeto que segura, ei isso não é da sua conta, então não têm nada para matar a mosca, tudo bem, o pedido demora meia hora, vão entrando um casal de idosos, um grupo de adolescentes uniformizados pegam biscoitos Trakinas, um deles encara Passos, ei moço que tanto o senhor segura aí, tá se tocando é, em seguida a jovem atendente traz a média com queijo prato se desculpando pelo atraso, houve um probleminha com o gás e a torradeira estava com mal contato, Passos esquece a existência do adolescente, sua atenção é toda no café, o pão não aparenta estar quente, a mosca pousa sobre ele, suas patas se esfregam num desejo incalculável, sugar, sugar, que merda maldita, a mão que segura a caixa instantaneamente se joga sobre o pão-mosca, foi mais rápida, que merda nem café mais a gente pode tomar em paz, essa imundície aqui, a jovem atendente aparenta preocupação, ainda não tinha pagado o pedido, caberia à obesa a obrigação, o casal de idosos se vira para Passos, a idosa se levanta da mesa carregando algo que parecia um cordão, meu amado tome esse tercinho, carregue com você, você está precisando orar, Passos pega o terço com a outra mão, enrola sobre a caixa, quem sabe isso lhe traria algum livramento, a obesa, agora consegue perceber como era gigante, uns dois metros talvez, o encara com a mão aberta, vê também um movimento estranho da jovem atendente, ei está ligando para quem, um som gutural da obesa o intimida, merda a porra da carteira, suas mãos vasculham os bolsos da calça, merda,

Gabriel Sant’Ana

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Caixas de sobra – Ep. 06

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vou contar mais um segredo, não vou mais voltar para aqueles olhos cansados, se o velho Cássio diz que é hora de retornar para o brilho no fundo da boca, o hálito que sai dela confirma a repugnância que ela me tem causado, eu devia tê-la chamado de Pandora e não Marlene, se eu tivesse feito isso desde o início da história, eu poderia ter compreendido porque estas caixas são tão malditas, ainda sinto a língua de Pandora atacar os meus ouvidos mas suas palavras não me seduzem, o tanque cheio chama, a estrada à frente pesa, piso com força, o velocímetro marca mais números que o meu Cássio, o carro resmunga mas acelera, neste momento rapidez é palavra de ordem, quem ainda manda aqui sou eu, isso eu grito o mais alto que consigo, grito pra mim mesmo, em voz alta, em velocidade alta, em tom de escárnio, agarrado ao volante, nosso filho ou as caixas, foi o que ela disse, como se a escolha resolvesse todas as nossas diferenças, custei a perceber que nada havia que nos aproximasse, não tinha nada que nos fizesse felizes para sempre, meu erro não foi dar ouvidos à Pandora, meu erro foi acreditar que somente a morte poderia nos separar, piso com mais força e o carro resmunga como se a culpa fosse minha e não dela, o ponteiro atinge uma velocidade inédita, meu erro foi sempre voltar para aqueles olhos depois de um dia inteiro entre caixas e pedidos e reclamações, o combustível que me conduzia somente até o próximo posto me impediu de acelerar por dez anos e se agora eu decido fazê-lo é porque essa combustão está percorrendo o corpo todo, então eu corto um carro, corto outro, ziguezagueio na estrada numa guerra que me força a pisar mais forte, que Marlene vá pro inferno, que Pandora vá pro inferno, corto mais um carro, vencer o inimigo sem lutar é uma arte, Tsu fala pra mim, mas quando aquela que eu amava torna-se meu adversário, a luta passa a ser inevitável, eu falo pra ele, seguro firme o volante tentando estabilizar o carro, acho que nunca fui tão veloz quanto hoje, nem tão estúpido também, o carro resmunga, o freio falha e eu perco completamente a minha direção.

Luciano Cabral

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Caixas de sobra – Ep. 04

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The blinds, por Rafal Mrozek. (Disponível em: http://www.deviantart.com/art/The-blinds-165280985)

Inescapável, é o que se diz de algo para o qual não há retornos ou contornos que possibilitem alternativa diferente. Apenas um único caminho. As blackouts estão alinhadas de forma a impossibilitar que me vejam. Apenas um único caminho pode trazê-lo aqui, e é pelo lado par da calçada. Mas tanto o par quanto o ímpar estão repletos de carros dos moradores. Como não observou isto? Teve de retornar e estacionar o carro na esquina próxima.

– Preste atenção ao que vou recomendar, filhinho. Existem regras básicas de convivência que você precisa gravar na alma. A principal é nunca falar com estranhos. Mesmo quando este estranho for reconhecido como vendedor, instalador de luz, presidente, vizinho… Se alguém lhe dirigir a palavra, não responda prontamente. O maior erro que se comete é não se atentar aos motivos e explicações que este alguém deve lhe dar após uma não resposta. Vou dar um exemplo. Mas preste muita atenção na história que tenho de contar. É curta. As consequências para qualquer ato que cometemos é algo inescapável. E não há escolha para isso. Eu pedi a troca de algo. Portanto estão me trazendo outro produto e eu devo devolver o que está em minha posse. Faltam apenas algumas casas para que a nossa campainha toque. Não posso sair daqui, em hipótese alguma, mas estou acompanhando tudo pelas câmeras e pela brecha das cortinas.

Meu andar descompassado, carregando algo desprezível certamente já deve estar sendo notado pelos vizinhos, mas não me importo com eles, quem se importa quando um motoboy vai fazer entrega de produtos da farmácia ou quando o caminhão descarrega geladeira e armários, é tudo isso muito naturalizado, mas quando um homem já desgastado estaciona na esquina próxima seu carro suspeito e se encaminha para uma das casas da rua carregando uma caixa imensa, apenas ele, sem nenhum ajudante, isso certamente é visto como suspeitíssimo, provavelmente alguém já está com o celular pronto para acionar a polícia, ou alguém já retira de sua gaveta um revólver, certamente, pois consigo perceber movimentos nas casas do lado ímpar, janelas que se fecham bruscamente, portas semiabrindo-se.

– Preste atenção, são as últimas recomendações. Deixe que toquem três ou quatro vezes. Na segunda, dê apenas um assobio e um grito de “ok” rápido. Traga-me agora a caixa que está dentro do meu armário.

O principal problema de compras feitas pelo telefone ou internet é a possibilidade do equívoco. Devemos confiar que os tamanhos dos produtos não vistos, não tocados, não apreciados correspondam ao que esperamos.

Gabriel Sant’Ana

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Caixas de sobra – Ep. 03

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O velho Cássio marca 18:35. O Garçom entra. “Tudo bem, com o senhor?”. A porta do banheiro está entreaberta. A cabine vazia. Um grande pedaço de merda, disfarçado de gato de Cheshire, sorri na privada. O coração está acelerado. O corpo sua em regiões ignoradas por um corpo dez anos mais novo. Santos Passos, vendedor, idade indeterminada pelas rugas, passa água no rosto. Fede a enxofre. Para ele, toda água de bica fede a enxofre. Imagina os ratos mortos, os ovos de insetos, o lodo, tudo sendo mascarado pela pedra amarela. Os dedos acariciam incrédulos a pele curtida durante anos pelo Sol. Quando foi que eu envelheci?

O velho Cássio marca 18:42. Está na mesa. A sua volta todos são iguais: espantalhos de terno, mastigando a comida de gosto já gasto pela rotina, olhos vidrados nas cores rodopiantes da tela. O horário é o limbo que separa o fulgor de vida das crianças de escola e comerciantes de meio-dia e a beleza familiar dos jantares noturnos. O almoço das quatro é a reunião de todos os restos: sempre que os restos de uma opção começam a esfriar no mostruário, os garçons, para não travar o fluxo, despejam comida nova por cima, misturando-a com o resto da antiga. Às 16 horas, só permanece no restaurante aquilo que ninguém quis, aquilo que circula entre as remessas novas, esperando ter a sorte de acabar num prato, mas esfriando conforme só lhes resta contemplar o fundo da bandeja.

O velho Cássio marca 18:52. O garfo desenha um redemoinho no molho de salada. Subitamente pareidólico, o rosto do menino se esculpe no nervo de carne que restou. O sorriso debochado. A ponta de catarro quase alcançando os lábios. A camiseta regata dos odiosos cartoons pós-modernos. O corpo era tão frágil que facilmente romperia entre suas mãos. Seriam necessárias apenas quatro caixas para carregar os pedaços do corpo nos bancos traseiros do carro. Quando foi que eu deixei de gostar de crianças?

O velho Cássio apita às 19 horas. Nunca foi capaz de reprogramar o relógio. Há dez anos ouve, como os lamentos de um velho sino de igreja, o monofônico e estridente aviso de uma hora vazia. Nunca soube, tampouco, que botão – ou combinação – é capaz de fazer cessar aquele som. Há dez anos gasta dez ou mais segundos apertando as pequenas hastes de metal em busca do certo. Dez horas de vida gastas em alarme. A caixa recebe o cartão. Senha. Nota. Recibo. Comanda carimbada. Comprovante do estacionamento. Vazando papeis, segue para o carro. O que eu teria feito com essas dez horas se nunca comprasse o relógio?

O velho Cássio marca 19:10. O carro deixa a fila do estacionamento e entra para a grande fila chamada rush. O pequeno bibelô no retrovisor gira de um lado para outro. O coro de buzinas é um alarme Cássio em que milhares de pinos impedem seu desligamento. Um último cliente a ser visitado antes da cerveja na cadeira de praia do meio da sala. Antes dos olhos cansados da Marlene, seu hálito de shake alimentício e aquela sua prótese dentária que fica brilhando no fundo da boca.  Um cliente nas bordas da grande cidade, onde quase tudo fica para trás.

O velho Cássio cansado marca 19:45. Santos Passos na rodovia. A Lua é apenas uma fatia fina de luz ofuscada pelo brilho xenônico dos faróis.

Pedro Sasse

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Caixas de sobra – Ep. 02

Coca cola, por Monika “Zi0oTo”. (Disponível em http://zi0oto.deviantart.com/art/Coca-cola-262887048)

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As nuvens estavam tão unidas que pareciam uma tampa branca fechando o céu. No rádio do carro nenhum anúncio de chuva. O vento soprava folhas secas pela janela do motorista. Desgraçado, pulsou a mente do homem enquanto girava a manivela para o vidro subir.

Quarenta e seis caixas ainda chacoalhavam. Não saberia dizer quantas casas visitou, quantos cães tentaram morder sua perna, quantas portas fecharam no seu nariz. Eram figuras anônimas em sua mente igual a uma lista telefônica.

Exceto uma.

– O que uma criança idiota sabe? – resmungou em voz baixa olhando para o retrovisor. O espelho estava tão deteriorado que ele mal via os contornos do rosto. Havia uma mancha cor de cobre bem suave que lembrava bastante o formato da Itália.

– Fechou a porta na minha cara? – continuou, esfregando inutilmente um trapo de camisa no espelho. – Um dia a casa pega fogo. E vai pedir ajuda pra quem? O primeiro estúpido que encontrar na rua. Moleque idiota.

O estômago apertava. Não conseguiu vender. Então insistiu, sacrificou o horário do almoço. E as caixas continuaram lá. Acenavam de um lado e para o outro no banco de trás. Só havia bebido uma lata de refrigerante. Sempre lhe disseram que coca ou café com estômago vazio causava úlceras. Devia ser lenda. Coisa de gente fresca.

Abriu outra lata de coca quente apoiando os cotovelos no volante e derramou pela boca seca. Sentiu o sangue fluir pelo pescoço e preencher a cabeça. A visão escureceu e voltou como tela de TV antiga.

– Precisamos comer alguma coisa, – disse encarando o vulto de caixas pelo retrovisor.

O carro atravessou uma alameda e virou para o estacionamento do primeiro restaurante que encontrou.

Entrou pela frente e sentiu uma lufada de ar frio. Havia telas de plasma penduradas em todas as paredes. As pessoas assistiam enquanto tilintavam os talheres nos pratos e tagarelavam. O garçom aproximou-se com um sorriso de apresentador de programa de auditório. Aqueles dentes brancos e rugas fechando os olhos o incomodavam.

– Boa tarde. O senhor vai querer mesa pra dois?

– Boa noite, – já passara das seis – Pra um.

A cara do atendente parecia couro curtido. Daqueles prensados que não enrugam. O sorriso persistiu até chegarem a uma mesa próxima à janela.

– Quero esse negócio aqui, – disse apontando uma fotografia qualquer do menu.

– Ok, senhor, – anotou no bloquinho. – Quer a entrada enquanto isso? Algo pra beber?

– Coca.

– Apenas isso, senhor?

– Só.

O garçom deu dois passos para trás e se virou graciosamente. Que bicho estranho, pensou.

A Coca ia ser servida num copo com gelo por outro garçom, mas ele interrompeu tocando-lhe o pulso. Bebeu no gargalo. Não confiava no gelo de restaurante.

Tomou metade em uma só golada. A garganta ficou dormente. Quando abaixou o copo sentiu a bexiga latejar.

A porta do único banheiro do restaurante estava trancada. A sombra de alguém caminhando fazia a luz por baixo da porta piscar. Ele franziu a testa. Parecia que estava correndo de uma ponta a outra.

Coçou debaixo do relógio no pulso. Conferiu quatro vezes seguidas que ainda eram dezoito horas e vinte minutos. Não suportou e bateu.

– Tudo bem aí dentro? – disse tentando parecer preocupado.

Não havia som. A sombra parou um segundo. Uma fresta se abriu, mas ele não notou nada até mirar por baixo.

A criança fechou rapidamente e girou a tranca. Tinha certeza. Era um garoto, o mesmo garoto que zombara dele mais cedo. Também ouviu um barulho metálico chacoalhar. Provavelmente um ferrolho. O homem tentou impedir com o punho fechado num reflexo retardatário e inútil.

– Moleque escroto, – disse, mas não baixo o suficiente. Sem perceber o som dos talheres e do burburinho diminuírem, bateu na porta contendo a força.

Jonatas Barbosa

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