“Tesseract”, por Jonatas T. Barbosa

“Não consegue ver bem o próprio rosto. Respira fundo. Conduz a navalha, observando os borrões de pasta de dente. Encosta o fio à altura da garganta. Quando eleva o pulso, a lâmina escorrega. Ele ajustou mal o barbeador. A navalha está solta. Não sente dor a princípio. Mas se assusta quando põe o dedo e nota o fluido vermelho pingando no chão”.

O tesseracto, também conhecido como hiper cubo, é um polícoro. Isso significa que ele é um objeto tetradimensional. Da mesma forma que uma sucessão de quadrados perpendiculares é capaz de formar um cubo, uma série de cubos perpendiculares é capaz de formar um tesseracto.  Enquanto seres da terceira dimensão, não podemos mais que fingir que imaginamos um tesseracto, uma vez que sua real forma, disposta ordenadamente pela quarta dimensão, nos escapa à representação visual. Resistindo, assim, ao sensível, o tessaracto apenas pode ser capturado de duas formas: através da rede rígida da matemática ou da movediça areia da literatura. Uma vez que nos foge o domínio das regras geométricas, oferecemos aos leitores, hoje, um hiper cubo de letras.

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