1893 é Agora: Inglês de Sousa e a atual política

Há algum tempo, mencionei por aqui um comentário de Machado de Assis sobre a conveniência de ser esquerdista ou direitista na política brasileira. Os ânimos exacerbados e as posturas passionais, que ainda perduram (com alguns de nós escolhendo um lado ou outro e outros decidindo não escolher), muitas vezes afastam-nos de uma postura mais comedida. Para resumir, ainda estamos longe de uma reconciliação. Mas o que talvez achemos ser um momento novo na nossa história política, na verdade, não é. Certas posturas repetem-se em tempos de transição, como este em que vivemos.

Por isso, é possível encontrar este mesmo espírito hostil num conto do escritor paraense Inglês de Souza (1853-1918), chamado “Amor de Maria”, publicado no livro Contos Amazônicos, de 1893:

“Vila Bela é antes uma povoação do que uma vila. Três pequenas ruas em que as casas se distanciam dez, vinte e mais braças umas das outras; se estendem, frente para o rio, sobre uma pequena colina, formando todo o povoado. No meio da rua principal, a capelinha que serve de matriz ocupa o centro de uma praça, coberta de matapasto, onde vagam vacas de leite e bois de carro. Quando eu lá morava, as famílias da vila entretinham as melhores relações, e não acontecia o que agora se dá em quase todas as nossas povoações, onde os habitantes são inimigos uns dos outros. A maldita política dividiu a população, azedou os ânimos, avivou a intriga e tornou insuportável a vida nos lugarejos da beira do rio”.

Inglês de Sousa viveu um momento de transformações políticas, religiosas e literárias no Brasil. A guerra do Paraguai, de 1864 até 1870, a abolição da escravatura em 1888, a proclamação da república em 1889 e a própria virada do século trouxeram mudanças irreversíveis, e sentimos ainda hoje suas consequências. No conto, o narrador aponta os mesmos problemas que vivemos atualmente: a auto-infligida segregação por conta de escolhas partidárias. Entre este post e a publicação do conto, já se passaram 124 anos, mas a atualidade das palavras do narrador é surpreendente:

“Depois que o povo começou a tomar a sério esse negócio de partidos, que os doutores do Pará e do Rio de Janeiro inventaram como meio de vida, numa aldeola de trinta casas as famílias odeiam-se e descompõem-se, os homens mais sérios tornam-se patifes refinados, e tudo vai que é de tirar a coragem e dar vontade de abalar destes ótimos climas, destas grandiosas regiões paraenses, ao pé das quais os outros países são como miniaturas mesquinhas. Sem conhecerem a força dos vocábulos, o fazendeiro Morais é liberal e o capitão Jacinto é conservador”.

Não só surpreende as palavras, mas também o conselho. Chamamos uns e outros de esquerdistas ou direitistas, comunistas ou liberais, conservadores ou progressistas, mas mal sabemos “a força dos vocábulos”, ou melhor, o significado destes rótulos. Mal paramos para ouvir o que o outro tem a dizer, simplesmente por achar que não há nada digno de ser ouvido. O conselho do narrador, no fim das contas, é simples, mas estar disposto a segui-lo é difícil:

“Por mim, entendo que era melhor sermos todos amigos, tratarmos do nosso cacau e da nossa seringa, que isso de política não leva ninguém adiante e só serve para desgostos e consumições. Que nos importa que seja deputado o cônego Siqueira ou o doutor Danim? O principal é que as enchentes não sejam grandes e que o gado não morra de peste. O mais é querer fazer da pobre gente burro de carga, vítima de imposturas!”.

Quem tem medo de fluxo de consciência?

“Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo; eu estava deitado no assoalho do meu quarto, numa velha pensão interiorana, quando meu irmão chegou pra me levar de volta; minha mão, pouco antes dinâmica e em pura disciplina, percorria vagarosa a pele molhada do meu corpo, as pontas dos meus dedos tocavam cheias de veneno a penugem incipiente do meu peito ainda quente; minha cabeça rolava entorpecida enquanto meus cabelos se deslocavam em grossas ondas sobre a curva úmida da fronte; deitei uma das faces contra o chão, mas meus olhos pouco apreenderam, sequer perderam a imobilidade ante o voo fugaz dos cílios; o ruído das batidas na porta vinha macio, aconchegava-se despojado de sentido, o floco de paina insinuava-se entre as curvas sinuosas da orelha onde por instantes adormecia; e o ruído se repetindo, sempre macio e manso, não me perturbava a doce embriaguez, nem minha sonolência, nem o disperso e esparso torvelinho sem acolhimento; meus olhos depois viram a maçaneta que girava, mas ela em movimento se esquecia na retina como um objeto sem vida, um som sem vibração, ou um sopro escuro no porão da memória; foram pancadas num momento que puseram em sobressalto e desespero as coisas letárgicas do meu quarto; num salto leve e silencioso, me pus de pé, me curvando para pegar a toalha estendida no chão; apertei os olhos enquanto enxugava a mão, agitei em seguida a cabeça para agitar meus olhos, apanhei a camisa jogada na cadeira, escondi na calça meu sexo roxo e obscuro, dei logo uns passos e abri uma das folhas me recuando atrás dela: era meu irmão mais velho que estava na porta; assim que ele entrou, ficamos de frente um para o outro, nossos olhos parados, era um espaço de terra seca que nos separava, tinha susto e espanto nesse pó, mas não era uma descoberta, nem sei o que era, e não nos dizíamos nada, até que ele estendeu os braços e fechou em silêncio as mãos fortes nos meus ombros e nós nos olhamos e num momento preciso nossas memórias nos assaltaram os olhos em atropelo, eu eu vi de repente seus olhos se molharem, e foi então que ele me abraçou, e eu senti nos seus braços o peso dos braços encharcados da família inteira; voltamos a nos olhar e eu disse “não te esperava” foi o que eu disse confuso com o desajeito do que dizia e cheio de receio de me deixar escapar não importava com o que fosse lá dizer, mesmo assim eu repeti “não te esperava” foi isso o que eu disse mais uma vez e eu senti a força poderosa da família desabando sobre mim como um aguaceiro pesado enquanto ele dizia “nós te amamos muito, nós te amamos muito” era o que ele dizia enquanto me abraçava mais uma vez; ainda confuso, aturdido, mostrei-lhe a cadeira do canto, mas ele nem se mexeu e tirando o lenço do bolso ele disse “abotoe a camisa, André”.

Há quem diga que narrativas de fluxo de consciência são difíceis, seja para o leitor ou para o escritor. A questão é que, se não for bem feito, a história tende a se arrastar, a ficar lenta demais, e certamente aborrecerá o leitor. Mas o fato é que o fluxo de consciência é uma estratégia eficaz para quem almeja puxar o leitor para o mais próximo possível do personagem.

O termo foi cunhado por William James, psicólogo americano irmão do escritor Henry James. Em literatura, ele se refere à sucessão contínua de pensamentos da mente humana. Entendida como caótico, rebelde e incontrolavelmente associativo, o pensamento tende a caminhos sinuosos e confusos. O que narrativamente o fluxo de consciência faz é imitar estas características da mente enquanto o personagem conta sua história.

Um dos romances mais interessantes para se ver esta estratégia é o Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar. O trecho acima é o capítulo que abre o livro. Nassar não extrapola o fluxo (como faz James Joyce, em Ulisses), mas se utiliza dele para tratar de temas espinhosos como intriga familiar, tradição, profanação e incesto. Atados ao pensamento do personagem André, nós leitores já mergulhamos na privacidade do protagonista: ele se masturbava no momento em que seu irmão bate à porta.

Esteticamente, Lavoura Arcaica envolve não apenas por nos obrigar a ser íntimos do protagonista, mas também por lançar mão de metáforas e associações imagéticas, como esta: “se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero”.

Admito que não é fácil escrever usando fluxo de consciência. É algo desafiador, a meu ver. No entanto, não se deve ter medo dele. É preciso ter grande controle da narrativa para que a coisa dê certo. É preciso remodelar as conjunções, as vírgulas e os pontos (e talvez até abrir mão deles). Tendo criatividade e técnica em mente, o resultado pode ser gratificante para o escritor. E mais ainda para o leitor.