Caixas de Sobra – Ep. 36

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Na garupa da moto, meu corpo vai com os Onze, mas minha mente não obedece, vai contra eles, vai pra trás, pro passado, vinte anos, eu me pergunto quanto é o bastante? quem saberia responder esta pergunta neste mundo de merda e de números em que se sobrevive? em que minha importância era medida por fileiras de dígitos, de sorrisos por dinheiro, de gorjetas generosas, não aguentava mais aquilo, eu mesmo havia aberto a caixa, mas não podia arcar com isso, pôr a culpa em Pandora era bem mais fácil, sabia dos riscos, sabia bem o que era estar entre os Onze com uma taurus engatilhada na direção da própria testa, mas não tive coragem, Marlene cansou de perguntar de onde vinha o dinheiro, eu e ela sabíamos que caixas não podiam ser tão lucrativas, fosse o tamanho que fosse, que falta que meu filho faz agora, queria abraçá-lo como nunca fiz, usar as palavras leves que nunca usei, livrar-me dessas caixas e correr ao encontro dele como nunca corri, Brasil, Colômbia, Venezuela, Chile, Bolívia, Guiana, Argentina, México, Portugal, Espanha e eles queriam me mandar pra Angola, mas dizer não é assinar uma sentença, é fácil abrir a caixa de Pandora mas é doloroso fechá-la, a corporação era maior do que eu imaginava, onze é só um número dentro muitos outros, enquanto houver quem abra a porta pra receber as entregas, a corporação continuará crescendo, Angélica leva a mão ao abdômen toda vez que a moto trepida, ela é mais forte do que parece, seu ferimento tem o tamanho da minha ganância e eu quem deveria ter levado o tiro, não ela, mas ainda não acabou, nem pra ela e nem pra mim, consigo enxergar uma luz no fim da estrada, a mesma que deixamos pra trás, ironicamente, percebo que seria melhor ter continuado na completa escuridão.

Luciano Cabral

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Caixas de Sobra – Ep. 34

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fonte: https://cdn.pixabay.com/photo/2016/07/16/16/20/snake-1522257_960_720.jpg

uma serpente cruza o caminho de Passos, ele cruza os dedos lembrando as contas do rosário, sibila um verso da oração antiga, vade retro

a serpente continua seu rastejar em busca de

alguma centelha de esperança que se esforça por se manter viva, não foi para isso que dera a palavra? agora o problema é lutar pela vida, ainda haveria tempo para? pela vida de Angélica, já se distanciaram alguns metros da pedra sacrificial, ou do possível milagre, parece ouvir os fracos batimentos de um corpo em vias de se extinguir, mas confia nos ventos salutares da madrugada, futuro sopro revigorante

falaria ao chefe

Na mente de Santos Passos, Simeão ricto imparcial ainda acompanha o movimento, por que essa expressão?, continua seguindo os passos do gordo que ainda foge pela viela, vira à esquerda, entra num dos barracos, Passos e Simeão agora correm qual anjos justiceiros, viram à direita, a noite se adensa sobre os corpos, os ventos emitem sussurros de chuvas em aproximação, algumas gotas se precipitam sobre ambos que se apressam em direção ao chefe

perguntaria a ele, talvez exigisse, não, não, não poderia exigir estando naquela situação, Angélica ali reforça sua condição

por Gabriel Sant’ana

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Caixas de Sobra – Ep. 33

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É uma terça de tarde. Santos caminha junto a Simeão pelo acostamento. “Uma lição importante do trabalho. Eu já consegui mais clientes que uns três de vocês juntos, que porra de lição é essa que se aprende depois de já estar cascudo?” Simeão não responde. Seus lábios sussurram Blue Moon enquanto o dedo com o grande anel de prata batuca a lateral da pasta.

18 anos mais tarde o rio arrasta o sangue de Angélica, e Santos Passos é apenas uma sombra debatendo-se contra a natureza. Os tiros, antes cantando de tronco em tronco dão lugar a um silêncio de caça. Cada moita guarda seu possível predador a espera de um galho quebrando num lugar qualquer da floresta. Santos Passos sente que, há demasiado tempo, nada no sangue dos outros, sente que é hora de nadar em seu próprio sangue.

É uma terça à noite. Um português de camisa branca manchada os conduz aos fundos do armarinho. A funcionária sorri para Santos Passos. Ele pergunta o preço do relógio de pulso. O português balança a cabeça e gesticula. Uma das Caixas está vazia sobre a mesa. Simeão abre as travas da maleta. “A última lição é a mais importante, Ben. É o pilar de todo o esquema. É uma lição ancestral. Os gregos já a conheciam…”. Ele termina de colocar suas luvas de couro e retira uma lâmina fina da maleta. Cabo de marfim. Geburah. “Uma vez a caixa é aberta, Ben, a morte é liberada no mundo”.

O corpo de Angélica está sobre uma pedra. A água circunda os joelhos de um Santos gasto. A lua cria as curvas da estátua estoica que ela mesma se tornou. Os olhos buscam entre as gotas da chuva o rosto do algoz. “É isso que você quer?”.  A voz é pura alma escapando do corpo cansado. “É isso? Não vou mais correr! Eu quero que você olhe na minha cara. Eu quero ver sua cara e sentir seu cheiro enquanto você me mata…”. O lobo sai das sombras. Pelo eriçado. Passo a passo vence o rio até que entre os rostos de presa e predador fique apenas a espessura da tensão. Nada em Simeão mudou em duas décadas de perseguição. Talvez apenas estivesse mais oco. Menos humano. Menos mortal. Talvez fosse apenas um pesadelo. “Você conhece a lição, Ben…”. A Geburah cruza o ar como um fogo fátuo piscando na mais solitária noite. Apenas diante da morte a total clareza da última lição atinge sua mente. A lâmina é freada atravessando sua mão. “Espera! Eu… eu… eu sei onde achar ela. Eu cansei disso. Eu não vou mais… eu… porra, Simeão, eu vou cumprir esse jogo doentio de vocês. Mas primeiro eu quero falar com o chefe… e… e a garota na pedra precisa sobreviver”.

É uma terça e um gordo treme em passos lentos de recuo. Há dois furos delicados transpassando pele, gordura e órgãos. Pinga menos sangue do que Passos poderia esperar. A porta dos fundos se abre. Um gordo trôpego dispara pela viela. Simeão gosta. Sente o cheiro da noite. O sabor do medo no ar. “Vamos dar a ele uns segundos de vantagem. Se não perde a graça…”

Pedro Sasse

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Caixas de Sobra – Ep. 28

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O rosto de Passos estava emoldurado por suor. A testa estava tão quente que mal ouvia as palavras de Angélica. Ele não compreendeu bem o que pretendia, mas funcionou. Era só manter a calma. O chefe se inclinou para frente exalando um cheiro de Leite de Rosas.

– Mataram um dos nossos, é?

– Sim. Não teve o que fazer. Mas a gente-

– Cala a boca, piranha. Deixa o amigo caixa falar.

 

O suor brotou abundante na testa e caiu no olho. Passos respirou fundo e começou. A ponta dos dedos tremiam. Abriu a boca e falou. Cada som atropelava o seguinte, como se vomitasse. Outra gota pingou do queixo e se avolumou na superfície de madeira. Mais algumas e a poça encostaria no cano da arma. Ao terminar, o chefe girou a arma e disse:

– Senhor caixa, você vai ter que contar tudo de novo. Não tô entendo nada.

– Desculpa.

– Não precisa ficar nervoso. É só falar uma coisa de cada vez.

Santos enxugou a testa com a mão trêmula e engoliu o resto de saliva na boca. Olhou de soslaio. O rosto de Angélica era impenetrável. Não havia rastro de piedade nos olhos. O chefe estalou a unha no coldre da arma. O buraco escuro apontado para o peito de Passos esfriava o sangue.

– Vai por mim, caixa. Se tivesse que passar você, já teria passado.

Santos encolheu na cadeira como uma lesma coberta de sal. Ia meter a mão no bolso. Não o fez. Podiam entender mal. O chefe passava legítima sensação de tranquilidade. Mas o dedo indicador de cada um dos capangas estava no gatilho. Alguns pressionavam até a folga de segurança. A maioria deles estava ali não por necessidade, mas pelo hábito de matar. Começava com um gato, depois um primo numa briga. Não conseguiam parar. Poderiam disparar ao som de uma tosse. Encherem seu corpo de buraco.

Não havia nada no bolso além dos restos de Tzu, lembrou. Uma página riscada com o desenho de giz de cera.

Santos respirou fundo e abriu a boca. Agora foi pior. As palavras não saíam. Pareciam ter entupido a garganta.

– E-E-Eles. Sã-sã-

– Não tô entendendo porra nenhuma.

O chefe pegou a arma como se fosse feita de papel.

– São onze.

– Que onze? De que porra ele tá falando, Angélica?

O suor se misturou com as lágrimas que se acumulavam no canto dos olhos.

– Agora vai chorar?

Passos deslizou os dedos para debaixo da mesa. A mão se encaixou nos bolsos. Havia alguma coisa embolada num monte de contas. Um terço. Ele lembrou. A velhinha falou rápido. Só deu tempo de envolver a caixa e ir embora. Nunca rezou um terço. Passos ia à igreja durante a infância. Nunca gostou de rezar. Inclinava a cabeça. Pensava no jogo de futebol ou na menina que estava no banco lá trás. Só gostava das vezes que o sermão era sobre milagres. Os mártires e profetas pareciam super-heróis.

O cano encostou na testa. Santos espremeu o cordão entre os dedos. O fio se arrebentou.

– Se não vai falar, vou te ajudar. Vou desentupir sua garganta.

Sentiu o ferro descer ´pelo nariz e tocar a ponta do lábio.

– Os onze – engolindo lágrimas, falou.

O canto de Dona Tereza lá fora deu lugar uma turba de pernas. Uma sucessão de armas engatilhadas. O murmúrio dos homens engolido pelo gemido das mulheres lá fora.

Os olhos de Passos ardiam afogados no escuro. Ele se recusou a abri-los.

Jonatas Tosta

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Caixas de Sobra – Ep. 26

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Por Rahulbarfa. (Disponível em: http://www.deviantart.com/art/Gun-320936740)

Os músculos dos ombros se contraem. A respiração fica mais tensa. Os lábios se comprimem. Não é um ruído ou um som de carro, mas a fisiologia dos homens que anuncia a chegada do chefe, como leões que se retraem com a aproximação do alfa. Os homens estão menos expansivos; eu já quase não existo. Seguro a caixa que devo entregar, uma caixa que desconheço o conteúdo. Pra mim, que conheço o peso e o poder de uma caixa, há ali uma imensidão.  

Então as vozes se multiplicam sobre mim em enxurrada.

            – Então é esse aí?

            – Sim, chefe.

            – Teu nome é Passos, né?

            Resmungo.

            – Relaxa. Tu sabe que os caras andam falando muito de você. Mas a galera da comunidade disse que tu é tranquilão mesmo.

            – Eu só tô morando por lá agora…

            – Não fica assustado. A gente só pergunta porque quer saber. Aquela gente precisa de alguém pra por ordem. E não é toda hora que chega alguém de fora, com a polícia atrás.

            Percebo que ele segura uma arma, como um brinquedo, parece leve nas pontas dos dedos.

            – Isso daí é pra mim?

            Confirmo e entrego tão rápido como se estivesse queimando minhas mãos. Ele abre com uma delicadeza muito maior do que eu esperava, rasgando a fita ao redor. Eram eletrônicos. Eletrônicos. Peças e celulares e CDs. O suor escorre de meu rosto e eu sinto que ele debocha de mim. Num CD pode caber a imensidão.

            – Então, cara, vai falando. A gente quer sabe tudinho. Tem gente espreitando aí. Aqui tu tá seguro. Mas a gente só quer saber que bicho que botamos pra dentro de casa.

            Busquei o olhar de Angélica, mas não o encontrei.

            – Tinha gente procurando por mim? Além da polícia?

            – Cacete, quem é que tá fazendo pergunta aqui? A verdade é que tu pode ser um problema. Eu só quero descobrir se tem um bom motivo pra não te mandar pra lá de volta, vivo ou morto. Então pode contar. Conta tudo. Tudo.

Lucas M. Carvalho

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Caixas de sobra – Ep. 12

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Passos girou o pescoço de volta para o carro e olhou a coisa nojenta espalhada no interior. Cenas de crime de seriado eram parecidas com aquilo, pensou. A mão que segurava a lanterna tremeu. Usou a outra para o recepcionista não perceber. Depois apontou a luz amarelada para o banco traseiro. A visão turvou-se como se vislumbrasse um cadáver. Deveria haver uma pilha de caixas ali. Estava acostumado a conferir o estofado abarrotado pelo retrovisor. O perímetro vazio sacudiu o fundo de sua mente. No espaço continha apenas pedaços de papelão e farelo de isopor.

– Acalma, senhor, – repetiu o recepcionista, pondo a mão no ombro trêmulo. – Vamos ligar pra polícia. Não devem ter ido muito longe.

O toque o fez se encolher. Notou a roupa amarrotada, os botões ajustados uma casa acima da camisa. Apontou a luz para o rosto do jovem.

– E que inferno você estava fazendo?

O rapaz protegeu os olhos, ajeitou o cinto e pôs uma parte da camisa para dentro da calça com a outra mão.

– Problemas na cozinha. Precisavam da mim lá e me ausentei, – mexeu timidamente o cabelo. – Seja lá quem tenha sido, não fez barulho. Eu teria ouvido.

Santos Passos voltou a lanterna para o fundo e continuou a avaliação da perda. Não haviam deixado uma caixa sequer. Já não tinha mais o relógio, agora as caixas. O que mais perderia? Coçou ao redor do pulso e sua respiração começou a acelerar.

– O senhor está bem? Quer que eu chame a polícia? – perguntou o rapaz.

Piscou os olhos. Estavam ardendo de tanto tempo abertos.

– Não precisa chamar ninguém – respondeu oco, e devolveu a lanterna jogando-a no peito do homem. – Só preciso de uma coisa. Preciso ver a lista de hóspedes.

– E o sangue no carro? Alguém pode ter sido assassinado.

Encarou-o com as pálpebras em fenda. Massageou o pulso sem se dar conta que relaxara um pouco, mas sentia os músculos da face tesos, duros como corda de forca. Estava velho, finalmente. Vivera demais para dar ouvidos àquelas divagações sobre fotos, relógios e caixas. Insatisfação juvenil e questionamentos existenciais, algo do eco do que os professores de escola resmungavam. Nunca entendeu exatamente o que queriam dizer, e menos ainda como ele poderia se ter inclinado a tais tolices. Tinha um problema, precisava resolver o problema, e não criar outro como o idiota pretendia ali. Olhou para as impressões de sangue no vidro. Os músculos da bochecha estavam duros feito casca de noz.

Entrou no carro e apanhou a agenda com a lista de endereços, cobranças e dívidas. Folheou até encontrar páginas em branco.

– Você vai me ajudar, – rangeu o maxilar apontando o indicador para o garoto, – você vai ligar pra todos os quartos, e vai ver eles um por um.

– Mas senh-

– Acho melhor a gente se entender logo, amigo. O gerente não vai gostar de saber que teve problemas com um cliente porque você estava na cozinha ao invés de estar no seu posto…

Jonatas T. Barbosa

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Caixas de sobra – Ep. 11

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não sabia que horas eram nem poderia saber, mas sentir o Cássio sem tê-lo no pulso era um aviso, dizendo pra mim que, mesmo que eu lutasse pra deixá-las pra trás, algumas coisas ainda permaneciam ali, agarrando meu braço, impedindo que eu avançasse, retardando meus passos, Passos sou eu, seria uma grande ironia se eu, tendo o nome que tenho, não conseguisse mais progredir, vesti a calça, a camisa, os sapatos, quem recebe um telefonema à essa hora da noite não pode agir como se nada estivesse acontecendo, eu não podia agir assim, sabia que algo acontecia, só não sabia o que era, fui enganado esse tempo todo, eu achando que caixa após caixa, entrega após entrega, meus passos estivessem me conduzindo pra frente, minha estupidez foi tão grande nesses anos todos que eu demorei a perceber que não era nada disso, não percebi que havia passado muito tempo e por causa disso o telefone tocou novamente e novamente o recepcionista me convocou, peguei a chave e saí.

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no saguão, quase nada do que eu ouvia fazia sentido, o recepcionista não quis explicar ou não sabia explicar, de onde eu estava, meu carro parecia do mesmo jeito, parado, estacionado, assim como eu, sem progredir, mas carros não conduzem, eles são conduzidos, que merda de vida era esta que eu não conduzia? que não me deixava dar mais um passo? eu estava andando pra trás sem ter a menor ideia disso, mas eu tinha que andar pra frente, sair do hotel e atravessar a rua, só assim eu pude ver o que tinha de errado com meu carro, o vidro do carona estava quebrado, com os estilhaços espalhados no asfalto e nenhum caco dentro do carro.

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sangue

pedi que me trouxesse uma lanterna porque aquilo precisava ser explicado, o foco de luz percorreu todo o interior do carro, revelando restos de unhas, fios de cabelo e sangue, eu olhei para o recepcionista, ele olhou pra mim, eu sabia o que ele esperava de mim mas, como ele, eu não sabia explicar o que estava acontecendo.

Luciano Cabral

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