Caixas de Sobra – Season Finale

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No auditório, ainda no primeiro piso, Passos viu de soslaio a palestra ministrada pelo vendedor platinum A para novos integrantes. O esquema em pirâmide, produtos cosméticos, eletrônicos, dietéticos. Programas de fidelidade, acúmulo de pontos. O palestrante contava como quadruplicou o salário em dez anos. A acústica do prédio era tal que aqueles que andassem nas lojas e escritórios do térreo podiam ouvir cada palavra proferida no auditório, mas sem que chegasse a ser incômodo. Ali havia duas agências dos maiores bancos do país. Um escritório de advocacia, um banco menor especializado em investimentos em ativos. No segundo andar, de fácil acesso por uma escadaria espaçosa ou pelo elevador panorâmico, havia o restaurante, o escritório do plano de saúde e a gigantesca academia para funcionários.

Frente aos quatro elevadores com ascensoristas, Passos, apesar de bem escoltado, fez sozinho o trajeto que bem conhecia. Apenas o terceiro elevador subiria para além do sétimo andar – mas esse nunca vinha ao térreo e não podia ser chamado, mas descia sozinho dependendo dos rostos reconhecidos nas câmeras. Quando entraram no espaço espelhado, Issacar apertou as mãos do funcionário e anunciou:

– Benjamin, de São Paulo. O Patriarca deseja vê-lo.

Era no oitavo andar. Enquanto subiam, o próprio ascensorista os revistava com detector de metais. Quando o elevador parou, ainda levou alguns minutos para que a porta fosse liberada.

– Ben, quantas vezes viu o Patriarca?

– Apenas uma.

– Depois de hoje, terá visto mais que eu.

O cheiro leve de incenso verbena expandia-se pelo espaço amplo e naturalmente iluminado. Issacar desapareceu no elevador, e Passos se viu sozinho com o segurança que vestia terno cinza Dolce & Gabbana, e lia A Metamorfose.

– O Patriarca o aguarda na próxima sala.

O apartamento gigantesco ocupava todo o oitavo andar. As paredes externas eram de vidro, a decoração moderna e sutil, móveis arredondados, tudo branco, tapetes redondos felpudos. O som de uma pequena fonte esculpida trazia tranquilidade ao local. Passos sentia dor ao caminhar. O salão seguinte, com uma piscina interna ao redor de uma ilhota com sofás e uma mesa de centro, fazia frente a uma cozinha americana.

– Fique à vontade, Benjamin. Ou prefere que o chame, só aqui, de Passos?

A última vez que a vira, tinha cerca de setenta anos. Não parecia ter mudado, apesar de estar agora com oitenta, talvez oitenta e dois. Ela estava elegante, os cabelos brancos cortados em chanel, joias sutis. Trazia do bar uma bandeja, que repousou na mesa de centro com um bule e duas xícaras de porcelana chinesa. Convidou Passos a se sentar, e bebericou o chá.

– Tenho um presente para você.

Na mesa, ao lado de um vaso com tulipas, havia uma caixinha preta. Quando abriu, Passos viu um relógio Cássio novo.

– Não é das melhores marcas. Vamos falar do seu trabalho inacabado?

A tranquilidade do Patriarca o deixou desconcertado. O clima era perfeito, o ar condicionado, o aroma, o barulho de água.

– Símbolos. Quanto mais velhos ficamos, mais eles nos fascinam. Lamento que tenha deixado Pandora ver o conteúdo da caixa. Sabe o que deve fazer.

– Por que vocês mesmos não a matam?

– Porque você ainda está dentro. Quando se sobe além de certo ponto, não há mais descida. E você continuou subindo. E continuou. O mal entre nós precisa ser purgado, e neste caso precisa ser pelas suas mãos. – bebericou o chá – Quando pediu para falar comigo, já deveria saber que não negociaria, muito menos ditaria as regras. Oh, Benjamin, como eu te amo.

Apesar do ar condicionado, Passos começou a suar.

– É a última proposta? – perguntou.

– Não é proposta. É uma designação. Não se nega uma designação.

Passos devaneou com o olhar fixo na água que lhes rodeava.

– Eu… faço.

– Servo bom e fiel.- ela sorriu – Manaus. Na saída você receberá a passagem e o voucher para sete dias no melhor hotel. Quanto ao resto, improvise. Não vai beber seu chá?

Passos tocou os lábios no líquido quente. Chá inglês de camomila, mel e baunilha. Quando se levantou para sair, viu, sobre uma mesa de vidro num canto, uma caixa. Uma caixa daquelas. O formato e peso que bem conhecia.

Teve calafrios.

Lucas M. Carvalho

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Caixas de Sobra – Ep. 36

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Na garupa da moto, meu corpo vai com os Onze, mas minha mente não obedece, vai contra eles, vai pra trás, pro passado, vinte anos, eu me pergunto quanto é o bastante? quem saberia responder esta pergunta neste mundo de merda e de números em que se sobrevive? em que minha importância era medida por fileiras de dígitos, de sorrisos por dinheiro, de gorjetas generosas, não aguentava mais aquilo, eu mesmo havia aberto a caixa, mas não podia arcar com isso, pôr a culpa em Pandora era bem mais fácil, sabia dos riscos, sabia bem o que era estar entre os Onze com uma taurus engatilhada na direção da própria testa, mas não tive coragem, Marlene cansou de perguntar de onde vinha o dinheiro, eu e ela sabíamos que caixas não podiam ser tão lucrativas, fosse o tamanho que fosse, que falta que meu filho faz agora, queria abraçá-lo como nunca fiz, usar as palavras leves que nunca usei, livrar-me dessas caixas e correr ao encontro dele como nunca corri, Brasil, Colômbia, Venezuela, Chile, Bolívia, Guiana, Argentina, México, Portugal, Espanha e eles queriam me mandar pra Angola, mas dizer não é assinar uma sentença, é fácil abrir a caixa de Pandora mas é doloroso fechá-la, a corporação era maior do que eu imaginava, onze é só um número dentro muitos outros, enquanto houver quem abra a porta pra receber as entregas, a corporação continuará crescendo, Angélica leva a mão ao abdômen toda vez que a moto trepida, ela é mais forte do que parece, seu ferimento tem o tamanho da minha ganância e eu quem deveria ter levado o tiro, não ela, mas ainda não acabou, nem pra ela e nem pra mim, consigo enxergar uma luz no fim da estrada, a mesma que deixamos pra trás, ironicamente, percebo que seria melhor ter continuado na completa escuridão.

Luciano Cabral

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Caixas de Sobra – Ep. 33

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É uma terça de tarde. Santos caminha junto a Simeão pelo acostamento. “Uma lição importante do trabalho. Eu já consegui mais clientes que uns três de vocês juntos, que porra de lição é essa que se aprende depois de já estar cascudo?” Simeão não responde. Seus lábios sussurram Blue Moon enquanto o dedo com o grande anel de prata batuca a lateral da pasta.

18 anos mais tarde o rio arrasta o sangue de Angélica, e Santos Passos é apenas uma sombra debatendo-se contra a natureza. Os tiros, antes cantando de tronco em tronco dão lugar a um silêncio de caça. Cada moita guarda seu possível predador a espera de um galho quebrando num lugar qualquer da floresta. Santos Passos sente que, há demasiado tempo, nada no sangue dos outros, sente que é hora de nadar em seu próprio sangue.

É uma terça à noite. Um português de camisa branca manchada os conduz aos fundos do armarinho. A funcionária sorri para Santos Passos. Ele pergunta o preço do relógio de pulso. O português balança a cabeça e gesticula. Uma das Caixas está vazia sobre a mesa. Simeão abre as travas da maleta. “A última lição é a mais importante, Ben. É o pilar de todo o esquema. É uma lição ancestral. Os gregos já a conheciam…”. Ele termina de colocar suas luvas de couro e retira uma lâmina fina da maleta. Cabo de marfim. Geburah. “Uma vez a caixa é aberta, Ben, a morte é liberada no mundo”.

O corpo de Angélica está sobre uma pedra. A água circunda os joelhos de um Santos gasto. A lua cria as curvas da estátua estoica que ela mesma se tornou. Os olhos buscam entre as gotas da chuva o rosto do algoz. “É isso que você quer?”.  A voz é pura alma escapando do corpo cansado. “É isso? Não vou mais correr! Eu quero que você olhe na minha cara. Eu quero ver sua cara e sentir seu cheiro enquanto você me mata…”. O lobo sai das sombras. Pelo eriçado. Passo a passo vence o rio até que entre os rostos de presa e predador fique apenas a espessura da tensão. Nada em Simeão mudou em duas décadas de perseguição. Talvez apenas estivesse mais oco. Menos humano. Menos mortal. Talvez fosse apenas um pesadelo. “Você conhece a lição, Ben…”. A Geburah cruza o ar como um fogo fátuo piscando na mais solitária noite. Apenas diante da morte a total clareza da última lição atinge sua mente. A lâmina é freada atravessando sua mão. “Espera! Eu… eu… eu sei onde achar ela. Eu cansei disso. Eu não vou mais… eu… porra, Simeão, eu vou cumprir esse jogo doentio de vocês. Mas primeiro eu quero falar com o chefe… e… e a garota na pedra precisa sobreviver”.

É uma terça e um gordo treme em passos lentos de recuo. Há dois furos delicados transpassando pele, gordura e órgãos. Pinga menos sangue do que Passos poderia esperar. A porta dos fundos se abre. Um gordo trôpego dispara pela viela. Simeão gosta. Sente o cheiro da noite. O sabor do medo no ar. “Vamos dar a ele uns segundos de vantagem. Se não perde a graça…”

Pedro Sasse

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Caixas de sobra – Ep. 32

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A mata se adensa. Não é a primeira vez. As folhas cortantes dão lugar a um ajuntamento de copas baixas e retorcidas. Não ouve mais o barulho de motor. As pernas bambeiam. Há desníveis do solo coberto por folhas secas e frutas podres. Os insetos revoam. Relutam. Invadem o nariz, os olhos, os ouvidos. A estradinha de terra batida está longe. Não há sinal da trilha em meio aos troncos estrangulados por cipós. Em suas costas, o peso de Angélica é o mesmo de todos os pecados do mundo. Enquanto as vozes formigam e ficam para trás, Santos Passos ouve um resmungo de bolhas. Seus pés tropeçam. O som de línguas d’água lambendo as pedras se intensifica.

– Rio – sussurra Angélica com voz de vapor em seu ouvido. O hálito está frio.

Atiraram uma vez. As lanternas iluminaram o nada. Onze pontinhos fragmentados na distância. Nenhum ruído. Até feras temem o furor desprendido no cheiro daqueles que vem atrás. Alguém liga uma caixa de som. Não dá para saber qual música, mas é Elvis. Com certeza é Elvis. Simeão gosta de ouvir no máximo. Na última vez foi Love me tender. Pôs Elvis alto no rádio e afundou o crânio de um amigo com uma garrafa de whisky. Mas desta, provavelmente, é My way, Santos tem certeza.

Outro disparo, oco.

Tenta por um segundo ouvir a respiração enfraquecida. Não ouve nem sente nada, mas não interrompe a marcha. As costas estão empapadas de sangue. Escorrendo pelas nádegas e fazendo as coxas colarem na calça. Se ainda escorre é porque está viva, pensa.

O chamado das águas se intensifica. Pronunciam a primeira letra do seu nome. Ele sibila como uma cobra dormente. Santos atinge uma ladeira que antecede a margem do rio. Santos desce a ladeira coberta por raízes e sente a lama grudar nas canelas. Segue o contra fluxo das águas ignorando os galhos de plantas subaquáticas que perfuram as panturrilhas. Não olha para trás. Ignora a ausência de ruídos e o sangue frio de Angélica. Poderia descobrir que está morta. A margem se torna completamente íngreme. Não há outro caminho além da água. Não há como ignorar o seu chamado. Seguir pela água até a cintura. Enfrentar a correnteza até sabe lá São Cristóvão lhe permitiria. Não será a primeira vez.

Jonatas T. Barbosa

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Caixas de sobra – Ep. 31

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Por PublicDomainPictures. (Disponível em: https://pixabay.com/en/headlight-round-on-shining-glowing-2288/)

Por PublicDomainPictures. (Disponível em: https://pixabay.com/en/headlight-round-on-shining-glowing-2288/)

conheça teus inimigos, apareça nos pontos onde o inimigo terá que se apressar para se defender e marche rapidamente para lugares inesperados, cala boca cala boca cala boca cala boca.

‘não estou falando nada’

‘está sim, cala a boca’

as motocicletas correm na direção do carro, eu e Angélica temos que nos rastejar pra nos afastarmos deles e embrenhar na mata, os faróis vão iluminar cada vez menos, eu sei, e as pedras, a terra e a areia vão rasgar os joelhos, Angélica sente dor, o sangue escorre da ferida no abdômen enquanto ela rasteja, deixando um rastro que só será encontrado no dia seguinte, quando o sol estiver queimando esta estrada, eu preciso me levantar e ajudar Angélica a se levantar, ela respira fundo e aperta o ferimento, seu gemido é tão rouco quanto o motor das motocicletas, ela não vai aguentar, ela sangra muito, a bala deve estar se movendo por dentro dela, cortando a carne, ela está ficando fraca, sinto isso enquanto ela vai se erguendo, apoiada em mim, não vai conseguir, não vou dizer isso a ela mas quando fala o som da sua voz é desencanto.

‘consegue andar?’

‘me segura assim, por aqui’

‘assim?’

‘por baixo do meu braço’

‘apóia o seu no meu ombro então’

‘vai devagar, está doendo muito’

‘assim é melhor?’

‘isso, agora me levanta’

‘aguenta firme, a gente precisa continuar andando’

‘tem muito sangue’

‘você consegue’

‘e se eu não conseguir?`

Angélica me olha como se eu fosse capaz de decidir sobre vida e morte, ouço vozes agora, parecem vir de estrada, parece que eles estão por todos os lados, parece uma legião, a mata alta vai se fechando cada vez mais, o capim corta a pele como se estivéssemos atravessando uma plantação de lâminas afiadas, ouço um tiro, nem sei de onde vem, o peso de Angélica sobre o meu ombro é quase insuportável, ela não vai aguentar mas não posso dizer isso a ela.

Luciano Cabral

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Caixas de sobra – Ep. 30

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Suor escorrendo no buço

A cabana mais escura, a madeira iluminada pela lâmpada incandescente meio morta

Os três, de pé, a porta se abre

Ele está nervoso, ele está com medo

            Do lado de fora, cheiro de mato. Sons de grilos e cigarras.

            Sua mão encontra a de Angélica e a aperta com força.

um disparo ecoa mais perto

mais um, mais um

Eles estão vindo para cá.

                                   Eles correm, galhos estalam sob os pés, pulam raízes

a respiração abafada

uma estradinha de terra

                        Entra no carro, Caixa. Vambora. Vambora!

– Cadê o resto?

– Eles vão cuidar desses caras.

Vira a chave na ignição, o motor ronca, o estofamento vibra na manobra sobre o chão de brita.

Gira o botão do farol,            revela árvores e mais árvores e mais árvores e mais

– Desliga o farol.

– Quê?

– Eles estão chegando.

Baixou pra lanterna, seguiu na trilha, amortecedores rangendo

Angélica chorando baixinho

as contas do Santo Rosário se espalhando no bolso

mais um tiro. esse foi mais perto

Estrada esburacada raspa no eixo do carro

– Acelera mais.

– Cala a boca.

– Corre, cara, corre

cala boca cala boca cala boca cala boca cala boca

Som de motor passa rente à esquerda

São motos. Deus. São motos. Quantos deles?

                        Um tiro estoura na lataria.

– Que…

Outro. Uma moto passa à frente. Luzes de faróis alternam-se.

Pisa no acelerador até quatro mil giros, o carro sai da estrada e entra na mata, o farol direito estilhaça

Mais um tiro, sangue espirra dentro do carro

perde a direção e acelera sem parar

e bate

contra um tronco

o vidro

o metal

os galhos

o motor morre

Eu já vivi isso uma vez

Procura a maçaneta, abre. O motorista, baleado no maxilar, tinha a mão direita no coldre. Passos pega a arma

– Angélica, vamos sair do carro.

Ela geme.

está ferida? está? está ferida.

            Passos sai, destrava a porta, ela rasteja para fora. Ele engatilha a arma. Aproximam-se os roncos das motocicletas .

Lucas M. Carvalho

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Caixas de Sobra – Ep. 29

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Passado e presente se confundiam em um espiral de vozes e imagens. A fogueira e cantoria da vila. O dia das crianças no shopping. A primeira entrega. Pandora e sua mania de conversas com os personagens da TV. Os pedaços de corpo no hotel. Os gemidos abafados atrás da porta. O jagunço sem fôlego que cruza a entrada correndo.

– Acertaram o Das Dores lá perto do riacho, chefe. Ou tem milico atrás do equipamento ou é o tal delegado que tá no pé do Caixa.

A tropa, como esteira de produção, põe-se em marcha: embala, guarda, arma, veste, vigia. Na coreografia precisa da empiria, apenas o líder mantém-se estático. Seus olhos captam cada tremor na carne de um Santos Passos em desespero contido.

– Ainda estou esperando uma história, senhor Caixa. Os homens estão subindo e vamos você e eu pro inferno juntos se ela demorar.

Angélica tenta falar. É dissuadida pela sutil tensão no dedo do gatilho. Do lado de fora, os pássaros noturnos alertam no revoar de suas asas o avanço de corpos estranhos arrastando-se pela sombra.

– Você vai confiar em mim porque eu estou desesperadamente mais fodido que você… chefe.

A fala de Passos é puro reflexo medular. Uma nascente de palavras surge em sua boca, longe de qualquer reflexão prévia. Apenas descobre o que fala quando ouve a voz distante. Memória e pensamento, agora, dão lugar a um chiado agudo que se sobrepõe a todos os sentidos.

– Você vai confiar em mim porque a última coisa que eu preciso é de mais gente atrás de mim. Quem tá subindo não é a polícia, nem o exército, nem nenhuma força com que vocês estão acostumados a lidar. Estou tentando avisar desde que você chegou. Os onze estão vindo pra recuperar o décimo segundo. É possível sentir na tensão da mata. Eu não estou fugindo da polícia por medo de ser preso, você entende? A prisão seria um lugar de paz. De descanso. Mas quem está atrás de mim não encontraria dificuldade em me fazer acordar com doze furos nas costas no pátio de uma penitenciária. Quem está atrás de mim não encontraria dificuldade em invadir uma área tomada por forças armadas nem em mandar pelos ares esse barraco. Eles não estão interessados em dinheiro, nem poder, nem prestígio, nem sexo. É uma ideia. Inabalável. Incansável. Me perseguindo em cada pesadelo, atropelando essa realidade de papelão em que vocês vivem. Foi o que fizeram no hotel. E antes disso em São Paulo, quando ela abriu a… É por isso que você vai confiar em mim. Você vai querer me lançar como um pedaço de carne quando os cachorros avançarem raivosos na sua direção. Você vai querer que eu seja um problema distante quando eles chegarem aqui.

A arma passa da mesa para o coldre. Os olhos, antes focos fixos, são agora pequenas redes tentando captar no ar o perigo que pressentem. Com certa resistência, o dito chefe estende uma maleta metálica para Angélica.

– Cachorro louco esse aí. Tenho certeza que vai se dar bem com o Pablo.

Tiros ao longe indicam a hora de partir.

Pedro Sasse

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Caixas de sobra – Ep. 25

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O chefe não chega. O sol se esgueira por traz da folhagem densa, deixando raios esparsos serpenteando pelo chão. As aves de canto trocam turno com as de rapina e o assobio relaxante do vento se enche de frio. Chegar. Entregar. Sair. A quebra de planos era uma quebra na própria espinha de Santos Passos. Escorre pela cadeira distraindo-se no ir e vir do grupo armado. Nem um único som de Angélica. Está em sua pose de bicho noturno, toda olhos brilhando na escuridão, encurvada, como se a qualquer momento fosse rasgar a jugular de qualquer coisa que cruzasse o seu caminho. Santos e ela se entendiam melhor assim. No mesmo silêncio que se encontraram, há uma vida atrás, no muro do Coronel. E se nunca houvessem se encontrado? Visualiza sua invasão mal sucedida, um tiro na perna. A chegada dos policiais. Uma prisão em delegacia de interior.  A culpa dos assassinatos no hotel. Televisão. Família. Julgamento. Presídio dos grandes.

O pensamento inunda-se de um ruído que não tarda em transbordar para a realidade. Um grito abafado. Lamurioso, mas ritmado. As madeiras rangem. Angélica vira o rosto para a janela, encostando a testa no vidro empoeirado. As mãos fechadas e trêmulas. Só uma vez Santos Passos a viu daquela forma. Era fim de tarde e a comunidade perdia-se em risos e copos de cachaça em volta da fogueira-de-espantar-muriçoca. Dona Tereza cantava uma modinha seguida de palma e voz pelos moradores mais antigos. A cantoria, cheia de uma energia ancestral, de uma beleza bruta, contagiava os mais calados, como Paulo Gago e Marlon. Angélica, sombra e fogo, não dança, mas fica imóvel em frente à fogueira, farejando a noite e o passado. Santos Passos não percebe exatamente quando a festa acaba. A filha do Mestre Matias chora. Os homens discutem. Os velhos contemplam indiferentes os redemoinhos mínimos do rio da vida. Mas Angélica nasceu com o sangue de onça do mato. Rasga a noite em busca do culpado. “Foi à força”. “E o que ela tava fazendo de noite sozinha?”. “É caso de polícia”. “Isso dá morte”. Santos Passos segue de longe, sem interferir na caçada. Terminam atrás da vendinha. É um dos moleques de Pablo. Está ainda sem camisa. Sorriso e cigarro. Ela, mãos trêmulas. Segura-o como se fosse uma galinha de granja, mãos firmes no pescoço, cabeça contra o chão. Não há um ódio formulado em palavras, apenas a respiração forte e as involuntárias contrações no rosto iluminado pela lua. O vermelho mancha o quadro monocromático enquanto o facão passa uma e outra vez pela carne flácida. O som é como uma criança pisando numa poça de lama num dia de chuva.

A porta do único quarto do barraco se abre. Um dos armados sai decorado por um sorriso embaçado de degradação. Outro entra. E o ritual de grunhidos filtrados por pano de mordaça se reinicia. Nem Angélica ousa pará-los. O miojo esfria na mesa. E o chefe não chega.

Pedro Sasse

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Caixas de sobra – Ep. 24

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Já tinha se habituado às pedras, matos, mosquitos, formigas de todo tipo, percebe que sua audição não havia de todo se perdido, parece ter desenvolvido uma atenção mais sutil aos menores sons, ali é um sabiá!, agora se lembrava das rápidas aulas de Angélica sobre os cantos dos pássaros, mesmo seu olfato estava mudado, talvez aquele ambiente menos sobrecarregado de fumaça de automóveis, ou melhor, o efeito dos odores diversos numa concentração comunitária, em exposição gratuita e obrigatória, e principalmente o cheiro de Angélica, o que também faz com que seu tato se aprimore, se desmecanize, apesar das marcas do relógio ou do volante ainda estarem como uma tatuagem borrada,

ainda assim permanecem, não como uma identidade, mas como uma condenação, as caixas, por mais que tenha tentado o contrário,

ainda assim permanecem os pedidos, o dever-entregar-ao-companheiro, senão sua sobrevivência estaria arriscada, ele sabe disso, certamente, mas precisa sempre se lembrar do velho ditado deixado pelos romanos manus manum lavat, ou (desnecessário traduzir),

Avista o companheiro a quem deve entregar a caixa.

Aproxima-se. O rosto do companheiro não parece,

– Então você deve ser o sr. Caixa… entra aí…

parece que,

– Pode deixar a caixa em cima da mesa, ali ó,

Estão no cubículo que parece uma sala, a mesa apontada está no espaço à direita, onde existe um sofá desgastado,

– Pode sentar aí, sr. Caixa, eu tava terminando de preparar uma carne moída, o macarrão vai ser miojo mesmo, ou você prefere arroz?

– Por mim

– Mas agora lembrei, o arroz azedou… Mas me conta aí essa história de “caixa”, até agora não entendi o que tá nos jornais…

– Bem

– Não, não… você deve tá com fome, andou bastante, e a carne tá quase no ponto, e é melhor esperar pra contar quando o chefe vier.

Gabriel Sant’Ana

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Caixas de sobra – Ep. 22

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Passos despertou. Estava tudo submerso em silêncio. A TV sintonizada em um canal fora do ar, muda. O suor do seu corpo atraía os insetos. Era a única coisa com que não conseguia se acostumar. As moscas de lanchonete não passavam de borboletas comparadas àqueles parasitas. Dedicara-se a tapar cada fissura da casa, porém, sempre arrumavam uma maneira de entrar. Angélica dizia que antigamente era pior, que antes de inventarem os inseticidas industriais para plantações, nos tempos de garimpo de ouro, os mosquitos costumavam ter o tamanho de uma gralha, e existiam barbeiros do tamanho de onça. Sim, claro. É claro que existiam, ele concordava escondendo a boca atrás do copo de café.

As noites eram bastante desagradáveis, todavia, aquela madrugada estava ainda mais insuportável. Levantou-se para pegar a caixa de ovos vazia e os fósforos dentro da gaveta. Acendeu um. Deixou a chama queimar o palito até se apagar.

Ao longo de todas as noites, especialmente em noites quentes, o zunido aumentava. Mas naquela não. Passos, concentrando-se um pouco, poderia sentir o silêncio roçando a pele. Não. Isso era coisa de sua cabeça. Não havia motivos para se assustar. Pôs a caixa de ovos e os fósforos no colchão. Tentou bisbilhotar o quintal pelas cortinas. Matias dizia que, às vezes, bem no meio da noite, um ou outro garimpeiro morto caminhava pela região. Definitivamente Passos não era sujeito supersticioso. Achava graça. Mas observando aquele breu profundo como a garganta de um gigante, podia entender os medos daquela gente. As lâmpadas da varanda mal davam conta da fachada. Não conseguia ver nem sequer a bica com que enchia o balde para tomar banho.

Afastou a cortina para ter certeza. Tinha certeza. Não vira nada. Estava tudo em silêncio. Nenhuma brisa. Nenhum som de rã ou inseto. A dormência da perna se afastara e dera-se conta que o cheiro do corpo não era tão desagradável. Deixaria o banho para quando o sol nascesse e estivesse claro.

Jonatas T. Barbosa

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