Caixas de sobra – Ep. 24

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Já tinha se habituado às pedras, matos, mosquitos, formigas de todo tipo, percebe que sua audição não havia de todo se perdido, parece ter desenvolvido uma atenção mais sutil aos menores sons, ali é um sabiá!, agora se lembrava das rápidas aulas de Angélica sobre os cantos dos pássaros, mesmo seu olfato estava mudado, talvez aquele ambiente menos sobrecarregado de fumaça de automóveis, ou melhor, o efeito dos odores diversos numa concentração comunitária, em exposição gratuita e obrigatória, e principalmente o cheiro de Angélica, o que também faz com que seu tato se aprimore, se desmecanize, apesar das marcas do relógio ou do volante ainda estarem como uma tatuagem borrada,

ainda assim permanecem, não como uma identidade, mas como uma condenação, as caixas, por mais que tenha tentado o contrário,

ainda assim permanecem os pedidos, o dever-entregar-ao-companheiro, senão sua sobrevivência estaria arriscada, ele sabe disso, certamente, mas precisa sempre se lembrar do velho ditado deixado pelos romanos manus manum lavat, ou (desnecessário traduzir),

Avista o companheiro a quem deve entregar a caixa.

Aproxima-se. O rosto do companheiro não parece,

– Então você deve ser o sr. Caixa… entra aí…

parece que,

– Pode deixar a caixa em cima da mesa, ali ó,

Estão no cubículo que parece uma sala, a mesa apontada está no espaço à direita, onde existe um sofá desgastado,

– Pode sentar aí, sr. Caixa, eu tava terminando de preparar uma carne moída, o macarrão vai ser miojo mesmo, ou você prefere arroz?

– Por mim

– Mas agora lembrei, o arroz azedou… Mas me conta aí essa história de “caixa”, até agora não entendi o que tá nos jornais…

– Bem

– Não, não… você deve tá com fome, andou bastante, e a carne tá quase no ponto, e é melhor esperar pra contar quando o chefe vier.

Gabriel Sant’Ana

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Caixas de sobra – Ep. 23

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São 13 horas do sacro Domingo. Santos Passos está ajoelhado ao Sol. A discussão ocorre aos sussurros, eclodindo, vez ou outra, um princípio de grito rapidamente abafado pelo desejo de sigilo. A grama ressecada arranha seu joelho. Mosquitos pousam e partem de seu rosto petrificado. Dez horas antes está sentando na cadeira de vime do que aprendeu a chamar lar. Olha Angélica. “Preparado? Um, dois, três e…” afunda a cabeça na piscina da casa de Bacaxá. Tem doze anos. A prima o beija no fundo da água. O mundo inteiro está longe. A escola. O padrasto. As brincadeiras de mau gosto de Lelé. Os lábios ficam unidos em perfeita harmonia. Quer estar ali pra sempre. Mas o ar está acabando. Sabe que a qualquer momento terá que desistir daquele momento e voltar à superfície. Mas pensar nisso é gastar o prazer do beijo. Não quer pensar. Mas pensa.

São três da manhã. Angélica é um tronco de árvore no meio da floresta. Plácida. Firme. Tênue. A comunidade inteira está em silêncio. O mesmo silêncio do fundo da piscina. Tudo ali está submerso. O cheiro dela. O café. O trabalho na obra. Mas o ar está acabando. São nove da manhã quando acorda. É domingo e olha para o teto e suas constelações de buracos e rachaduras. Vê Aquarius próximo a uma nebulosa de mofo. “Eu perguntei tanto ontem da caixa não foi por mim não que eu sou fuxiqueira… mas tem um delegado lá no asfalto que é. Vem perguntando muito sobre o Homem das Caixas, como o jornal tá chamando. Ele mostrou até a notícia…”. O ar está quase no fim. Santos Passos sente seu pulmão murchando. O desespero vazando das frestas da consciência. O Sol paira no centro do céu quando partem para ver Pablo. “Ele não vai querer você aqui, com as crianças e… tudo mais. Mas ele vai ajudar porque ele ajuda quem é da comunidade. Mas tem que confiar. Você vai ter medo, mas tem que confiar”.

O gosto de cinzas na mordaça aguça peculiarmente seu paladar. Dá fome. As formigas escalam as coxas, desbravando um sertão púbico. A última bolha escapa da fusão das bocas. Seguram-se pelas mãos. Tudo é comunicado ali. Sabem que é preciso emergir. Passa um quarto de hora ajoelhado até tirarem a venda. Demora a se acostumar com a luz. “Compañero… tu sabes que no quiero tu mal, pero tampouco puedo dejar que la policia venga hasta acá…”. Santos Passos se vê num mar de estrelas verdes. Sentinelas passeiam entre a folhagem, bonés e panos no rosto, ak47 a tiracolo. “Pero me hán dicho que te gustan las cajas, no? Pues vás a dar um paseo por el bosque hasta que la policia se parta y aprovechas para llevarme una caja a un compañero, si, sr. Caja?”. Angélica repousa a mão em seu ombro. 14 horas está em pé. Uma mochila militar está presa às suas costas, a caixa, em sua mão. Algumas lavadeiras rasgam o ar em voo rasante. “Angélica, coge el camino de siempre y te quedas em el abrigo hasta llegaren los compañeros. Volveis em unos dias com el mio que las cosas deben estar mas calmas, por acá…”.

Santos Passos entra na sombra úmida da floresta. Angélica, predadora, caminha adiante de olhos atentos. Anos antes, ele a prima se olham por última vez através da ilusão ondulante das águas. E mergulham novamente na realidade.

Pedro Sasse

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Caixas de sobra – Ep. 22

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Passos despertou. Estava tudo submerso em silêncio. A TV sintonizada em um canal fora do ar, muda. O suor do seu corpo atraía os insetos. Era a única coisa com que não conseguia se acostumar. As moscas de lanchonete não passavam de borboletas comparadas àqueles parasitas. Dedicara-se a tapar cada fissura da casa, porém, sempre arrumavam uma maneira de entrar. Angélica dizia que antigamente era pior, que antes de inventarem os inseticidas industriais para plantações, nos tempos de garimpo de ouro, os mosquitos costumavam ter o tamanho de uma gralha, e existiam barbeiros do tamanho de onça. Sim, claro. É claro que existiam, ele concordava escondendo a boca atrás do copo de café.

As noites eram bastante desagradáveis, todavia, aquela madrugada estava ainda mais insuportável. Levantou-se para pegar a caixa de ovos vazia e os fósforos dentro da gaveta. Acendeu um. Deixou a chama queimar o palito até se apagar.

Ao longo de todas as noites, especialmente em noites quentes, o zunido aumentava. Mas naquela não. Passos, concentrando-se um pouco, poderia sentir o silêncio roçando a pele. Não. Isso era coisa de sua cabeça. Não havia motivos para se assustar. Pôs a caixa de ovos e os fósforos no colchão. Tentou bisbilhotar o quintal pelas cortinas. Matias dizia que, às vezes, bem no meio da noite, um ou outro garimpeiro morto caminhava pela região. Definitivamente Passos não era sujeito supersticioso. Achava graça. Mas observando aquele breu profundo como a garganta de um gigante, podia entender os medos daquela gente. As lâmpadas da varanda mal davam conta da fachada. Não conseguia ver nem sequer a bica com que enchia o balde para tomar banho.

Afastou a cortina para ter certeza. Tinha certeza. Não vira nada. Estava tudo em silêncio. Nenhuma brisa. Nenhum som de rã ou inseto. A dormência da perna se afastara e dera-se conta que o cheiro do corpo não era tão desagradável. Deixaria o banho para quando o sol nascesse e estivesse claro.

Jonatas T. Barbosa

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Caixas de Sobra – ep. 21

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red couch poligrafia

Disponível em: https://pixabay.com/en/red-couch-weathered-couch-sofa-66819/

nem mesmo Sun Tzu conseguiu resistir dentro do meu bolso, se a guerra é uma arte, eu devia ter orgulho do artista em que me tornei, eu pensava na pergunta de Angélica e na resposta que escaparia da minha boca se não tivesse sido aniquilada pelo meu sorriso, não há orgulho algum nisso, acho que Angélica esqueceu a pergunta que fez, parecia mais atenta às unhas do que à conversa, a televisão falava e falava, como se estivesse realmente procurando interação, olhei pra Angélica ali ao meu lado cutucando os dedos, vez ou outra levantando a cabeça pra olhar pra tela e eu conseguia enxergar mais coisas dentro daqueles olhos do que no horizonte de uma estrada em linha reta, de repente, ela já estava de frente pra mim, cara a cara, acho que ainda procurava a resposta que eu não dei, corria a ponta do dedo pelas rugas dos meus lábios, as unhas pintadas com o mesmo tom daquele sangue misturado aos estilhaços de vidro e fios de cabelo do carro, ela veio pra cima de mim como um bicho selvagem, subiu no meu colo e meu peito começava a dar sinais de entrega, suas mãos amassavam meus ombros e eles cediam tão fácil quanto pedregulhos jogados sobre papelão, pensei em empurrá-la pra longe mas não havia nada que eu pudesse fazer naquele momento, ela já desabotoava a blusa e exibia o contorno rosado dos seios, acho que ela estava esperando que eu fizesse alguma coisa, eu pensei em fazer alguma coisa mas achei melhor que ela fizesse, seu corpo pesava sobre o meu quadril e sua pele reluzia a propaganda da TV, ela agarrou minhas orelhas e puxou meu rosto até a sua barriga e eu não tive escolha senão deixá-la meter meu nariz no seu umbigo, o cheiro que eu senti era o mesmo do meu terno desbotado, lavado, usado na primeira vez que eu encontrei os onze, ela afastou meu rosto, desmontou do meu colo e ficou de pé, seus seios pareciam mais pesados do que antes, eu continuava deitado no sofá, sem saber como reagir, ela deu alguns passos pra trás e olhava pra baixo, desabotoou a bermuda e descia o zíper devagar, como se tivesse todo o tempo do mundo, o brilho da TV trovejava sobre aquele corpo seminu que mais parecia ilusão, ela ainda deu mais alguns passos pra trás quando o zíper atingiu a parte mais baixa da bermuda, ela parou, acariciou os pelos que apareceram e perguntou.

“o que tu vendia?”

Angélica cutucava os dedos, a televisão falava e falava, olhei pra ela e sua blusa  tinha todos os botões abotoados, eu continuava sorrindo, tentando aniquilar a resposta mas percebi que dessa vez isso não seria suficiente.

Luciano Cabral

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Caixas de sobra – Ep. 20

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– Não é assim que se vira a massa, seu Passos.

A cada vez que Matias me chama pelo nome, me amaldiçoo. Por que não fui inventar uma desgraça de nome falso? Coisas agora tão óbvias, mas que antes não passaram pela minha cabeça. Coisas que me fazem entender os grandes erros da humanidade. Guerras. Holocausto. Viver não é simples, não são decisões tomadas na frente de uma máquina de escrever.

– Vai deixar secar a massa, seu Passos!

Ele gritou. Eu imagino se alguém neste estado não ouviu. Meus olhos giram ao redor em pavor, acusando culpa, mas uma culpa que ninguém percebe, pois, aqui, todos são igualmente culpados.

– Matias, eu não sirvo pra servente.

– Pelo menos você não falta. Os moleques da Rafaela cagam tudo e ainda nem aparecem na hora do serviço.

Vinte e cinto reais no fim do dia. Volto para a casa da Angélica, suado, as roupas são fiapos de indigente. Cumprimento o Marlon, ou talvez o Diogo, nunca lembro quem é quem. O menorzinho é Levi. Nunca consigo olhar nos olhos dele. Angélica pede pra eu descer e comprar um macarrão porque a água já está fervendo. É um fim agradável de tarde, ao longo de muitas tardes agradáveis, como jamais pensei ser possível.

– Faz mágica, tio?

Ponho uma pedrinha na junta do cotovelo do menino e a faço aparecer no outro braço.

– Me ensina?

– Só se você for na venda pra mim, que eu tô cansado. Traz um macarrão.

Deito no canto que me foi preparado. Angélica assiste TV e faz as unhas dos pés.

– Me diz uma coisa, Passos. O que que tu fazia de trabalho?

– Eu? Era vendedor.

– E o que tu vendia?

Abro boca despretensiosamente:

– Era um…

No bolso, um papel manchado. Parece ser o que sobrou do velho “A Arte da Guerra”. Angélica olha para mim e espera a resposta. Eu apenas sorrio.

Lucas M. Carvalho

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Caixas de sobra – Ep. 19

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O sussurro impeditivo o afeta, aquela tonalidade feminina, de leveza agressiva, o faz cair em sua incapacidade, não pula o muro, Abrão, não! Vem comigo, melhor por aqui. Ser guiado. Passos segue. Angélica. Haveria de esquecer os dias passados por um tempo… O incidente. A falta de identidade. Passos prossegue num caminho tortuoso de velhas árvores de raízes aparentes, temeroso, como confiar nela, isso não era questão que lhe vinha à cabeça, apenas ela ter lhe indicado o perigo do pulo, quem sabe não perderia uma perna, ou braços pelo ataque dos cães treinados do coronel, quem sabe uma bala certeira na cabeça. Você deve estar muito perdido. Quando chegarmos, te deixo descansar. Pela manhã te apresento ao pessoal. Como se chama. Santos Passos. Ironia.

Chegam. Muros de pichações, abreviaturas, nomes, Samuca Saudades eternas. Dois homens, seguidos de três crianças, armados, se aproximam. Tá comigo. Olhares de cima abaixo sobre Passos.

Becos estreitos. Casas de vários tipos, de tijolos ou papelão, os tamanhos variam conforme o tamanho dos familiares, uma das regras era não exceder seis crianças. Caminhos que não seguem o trajeto das réguas com que as crianças aprendem a contar os números com Seu Afonso, professor de matemática aposentado, morador da casa amarela à Rua G. Santos Passos aprende, mesmo com fome e sono.

Não repara, é uma casa humilde. Pode usar o banheiro. Só não esvazia o balde d’água. Vou preparar um canto pra você deitar. E pega alguns panos velhos, toalhas que não servem para enxugar.

Finalmente deita.

Gabriel Sant’Ana

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Caixas de sobra – Ep. 18

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Coberto pelo escuro, pelo frio úmido que passeia pelas noites silvestres, Santos Passos não é mais que um tronco velho a espera do musgo. Àquilo chama descanso. Não o cochilo tenso no estacionamento do fast food depois do almoço. Não a madrugada vazia após o sexo tedioso, mecânico. Não os sonos conturbados dos primeiros dias de venda em São Paulo. É um descanso que já se apagava na memória, dos dias em que a rotina não batia ponto em seu peito a cada manhã. Lembra do rosto já borrado dela, sua graça e ruína, portadora de todos os dons e todos os males. Ela está vestindo um baby doll quase transparente. O corpo ainda nas primeiras curvas. Os olhos marcados pelas chamas vivas da juventude. Ela segura uma das caixas na mão, o primeiro lote que recebera. O papelão ainda rígido, quase brilhante. O adesivo de frágil luzindo o amarelo intenso. Olha o contorno rosado de seus seios e esquece tudo que deixou de lado para estar ali. Ela sorri. O sorriso que todo homem espera para saber que finalmente está feliz. O sorriso que quase nunca chega, e se afoga em frustração, em pornografia, em uma imaginação embaçada pelo vapor da água quente do chuveiro. “Já que agora você tem caixas de sobra, já que agora é o próprio Senhor das Caixas, eu também mereço um título, não acha?”. Disseram que era escapismo. Que era uma ilusão. Que era… errado. Longe da embriaguez da felicidade, amarrotado pela vida inteira que se interpôs entre ela e o céu que agora o cobria, talvez até concordasse. “Eu me proclamo, então, Pandora. Comporte-se, ou eu ABRO a minha caixa” A risada preenche o passado e o presente. Santos Passos espasma, trazido novamente a vida pelo voo noturno de um pássaro sem nome.

Pegaria o máximo de pacotes e latas que conseguisse, o suficiente para sumir uns dias, quem sabe acampar na floresta, ser tronco por um tempo. O muro baixo é decoração de um tempo esquecido pelo homem urbano, anterior às grades, aos cadeados, aos sonos conturbados pelos mínimos ruídos. Sobe sem dificuldade, permanecendo parado em seu topo, felino. Estaria a casa destrancada? Janelas abertas? E se ouvissem algo? E se fosse preso? Eles o encontrariam até lá, sabia. Não avança nem volta. Pura hesitação. Adrenalina varrendo a languidez do sono. Mas a fome não pede, ordena. O corpo pende, predatório, ao interior do terreno.

– É muita coragem de um cabra pensar em pular o muro da casa do Coronel.

Os olhos distantes, como o gato de Cheshire, flutuam entre os troncos, seguidos pelo igualmente arqueado sorriso. Quando, meses mais tarde, Santos Passos chorar a morte de Angélica no banheiro de um barco subindo o imponente Amazonas, essa será sua lembrança. O verdadeiro começo de um longo caminho.

Pedro Sasse

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Caixas de sobra – Ep. 17

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A meia lua assomava no centro do céu. Brilhava escondida entre nuvens roxas. O jeito com que sorria causava certo desconforto a Santos Passos. Não se importava se amanhecia ou anoitecia. Mas não suportava aquela sensação. De ser perseguido. Observado. Ele não contava os dias desde a fuga do hotel. Entendia-se mais avesso aos olhares curiosos, e, na mesma medida, estava mais íntimo da estrada. Era sua melhor amiga. As costas doíam menos por dormir. Depois que tudo terminasse, pensava, poderia compor seu próprio Testamento em sua homenagem. “A fuga pela terra esquecida”, ou “O retorno ao paraíso perdido”. Entretanto, os olhares fustigavam como agulhas. Irritava. A sombra dos Onze ainda estava grudada na sola do seu sapato. Em cada esquina que virava, por cada carro que passava, sentia unhas raspando, subindo o calcanhar. No final da tarde, meteu-se no banheiro de um bar e abriu a sola por dentro do sapato. Não estava louco, afirmava. Mas tinha que ver. Ver se não enfiaram um daqueles rastreadores modernos. Arrebentou o couro em vão. Agora o calçado engolia as pedras no caminho, obrigando-o a parar constantemente para tirá-las do espaço entre os dedos. Mais olhares. Não conseguiria caminhar mais de um quilômetro.Precisava de um lugar seguro pra dormir. Às vezes tinha a impressão de ouvir um barulho gorgolejante de pigarro perseguindo-o. Igual ao que Ismael fazia para provocar. Ismael batia na porta. Dava para sentir o cheiro de cigarro entrando pela fresta. Santos Passos oferecia a mão, mas ele não cumprimentava. Sacava o certificado de recebimento. Santos assinava. Depois destacava o canhoto com o endereço para carregar o carro com a remessa de caixas. Mas isso fora há muito tempo. Há meses atrás. Não devia ter se metido com eles, resmungava tirando uma pedra do sapato. Os olhos pesavam e o corpo estava ficando dormente. Ainda tinha chance de chegar a algum lugar e roubar um pouco de comida. Adentrou uma área pouco movimentada.. Talvez um aglomerado de sítios, um ou outro casebre colonial protegido por muros baixos, alguns mais precários, ruínas de madeira e tijolos cercadas por arame farpado. Nada mais. Os pigarros ainda o perseguiam. Não haveria tempo. Escolheu a terceira residência. Uma casa grande, de fachada antiga, daquelas ornamentadas por santos em azulejo. Havia dois picapes, uma motocicleta e uma caminhonete próximos à porteira. Perfeito. Percorreu alguns metros pelo caminho de pedras que adentrava um bosque. Parou atrás de uma touceira densa que crescia num ajuntamento de salgueiros podres. Sentou-se num tronco morto sob as copas, e começou a contar os insetos que matava para se distrair. Esperaria ficar bem tarde. Não precisava olhar para o céu. Não queria encará-la nos olhos e ter que ver seu sorriso.

Jonatas T. Barbosa

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Caixas de sobra – Ep. 16

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ponho o telefone no gancho, tenho a sensação de que todos os olhos do mundo estão sobre mim, saio dali como um bicho escorraçado, eles podem voltar, me perseguir, me atormentar, mas não são capazes de saber o que está acontecendo

dentro da minha cabeça

uma caixa, meu Cássio

sem Pandora, mais fácil

meus passos, passos pra trás

dois passos, passo a mais

Rubem não poupa ninguém

Simeão cara de cão

Judá morrer ou matar

digressão sem direção

doze menos passos são onze

sangue, unhas, vidro estilhaçado

carteira perdida, acidente na estrada

hotelzinho de merda, acabado

blowing in the wind

Sun Tzu nunca foi à guerra

Marlene e eu fomos

Marlene e eu

não devia ter ligado pra ele, devia ter ligado pra ela, em que eu estava pensando quando fiz esta ligação? meu pensamentos equivocados embaralham minhas pernas, tropeço como se estivesse aprendendo a andar, mas eu continuo, continuo andando, preciso me afastar dali, eles não são capazes de saber o que está acontecendo dentro da minha cabeça e às vezes nem eu sou.

Luciano Cabral

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Caixas de sobra – Ep. 14

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Para onde iria não é uma questão de trajeto pontual, antecipadamente programado, esta situação obriga uma fuga, pelo retrovisor ainda vê a merda do hotel, ainda vê aquele idiota do recepcionista gesticular alguma coisa, não voltaria, tentaria escapar, talvez não fosse inteligente o bastante para denunciá-lo, que o denunciasse então, tudo em si já era denúncia, esta caixa ao lado, este carro que emite sons inefáveis, gravíssimo erro de confiar naquele mecânico, o acelerador não o faz ir além, que sorte a existência de civilização poucos metros adiante, cidade do interior, larga o carro próximo a uma padaria, é obrigado a não deixar a caixa no banco do carona, bom dia senhor, uma jovem de cerca de dezenove anos, bonita, lábios avermelhados, sorriso encantador, me dá uma média, vocês têm queijo prato aí, sim senhor, MÉDIA COM QUEIJO PRATO, senta numa cadeira velha de madeira, uma mosca grudada na mesa sugando farelos de pão, ei por favor tem como limpar isso aqui, uma senhora obesa sai da cozinha armada de um pano de prato imundo e um borrifador, jatos sobre o espaço, algumas gotículas vão sobre a mão que segura a caixa, o pano desliza, a mosca pousa no ombro da mão que segura a caixa, vocês não têm nenhum inseticida não, a obesa não responde, um grunhido junto com um olhar questionador para o objeto que segura, ei isso não é da sua conta, então não têm nada para matar a mosca, tudo bem, o pedido demora meia hora, vão entrando um casal de idosos, um grupo de adolescentes uniformizados pegam biscoitos Trakinas, um deles encara Passos, ei moço que tanto o senhor segura aí, tá se tocando é, em seguida a jovem atendente traz a média com queijo prato se desculpando pelo atraso, houve um probleminha com o gás e a torradeira estava com mal contato, Passos esquece a existência do adolescente, sua atenção é toda no café, o pão não aparenta estar quente, a mosca pousa sobre ele, suas patas se esfregam num desejo incalculável, sugar, sugar, que merda maldita, a mão que segura a caixa instantaneamente se joga sobre o pão-mosca, foi mais rápida, que merda nem café mais a gente pode tomar em paz, essa imundície aqui, a jovem atendente aparenta preocupação, ainda não tinha pagado o pedido, caberia à obesa a obrigação, o casal de idosos se vira para Passos, a idosa se levanta da mesa carregando algo que parecia um cordão, meu amado tome esse tercinho, carregue com você, você está precisando orar, Passos pega o terço com a outra mão, enrola sobre a caixa, quem sabe isso lhe traria algum livramento, a obesa, agora consegue perceber como era gigante, uns dois metros talvez, o encara com a mão aberta, vê também um movimento estranho da jovem atendente, ei está ligando para quem, um som gutural da obesa o intimida, merda a porra da carteira, suas mãos vasculham os bolsos da calça, merda,

Gabriel Sant’Ana

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